19 de novembro de 2012

BAIRRO SOCIAL por António Gamito


Já tinha publicado este texto em citizengrave. Encontrei-o há cerca de dois anos, quando fiz uma busca na net para ver o que havia sobre o Bairro da Quinta da Calçada e descobri uma página de nome Lírio do Campo de António Gamito alojado na comunidade.sol.pt, onde com o título BAIRRO SOCIAL, havia uma crónica sobre a Quinta da Calçada com a data de 01 de Fevereiro de 2009. Embora não mencionasse o nome do bairro, pela descrição só podia ser o Bairro da Quinta da Calçada. Procurei no blog do Sr. Gamito mais algumas informações e só descobri que nasceu em 1943, portanto tem mais 11 anos do que eu, que nasci em 1954 e somos do signo balança, o que é bom. Resolvi agora, voltar a publicar mas, no blog da Quinta da Calçada que é onde ele pertence por direito. Coloquei fotos (referentes ao que ele nos conta) porque tem graça e faz bem à alma (que vejo cada dia mais minguada) e por fim só me resta agradecer ao Sr. António Gamito. Obrigado.


Bairro da Quinta da Calçada em construção. Foto copiada da revista Ilustração. 1938.


«No rescaldo amargo da segunda grande guerra mundial, o meu Pai resolveu abandonar a quinta e a casa dos meus Avós, a meio-caminho entre Santiago e Sines, e rumar, com a Mulher e dois Filhos (o meu irmão e eu), em direcção a Lisboa: não sei se procedeu bem ou se procedeu mal, mas eu, então com quatro anos de idade, tive uma pena enorme de deixar os meus Avós e a Casinha que, dentro da quinta, nós ocupávamos. Andámos em bolandas várias pelo Pote de Água e fomos, passados uns tempos, “aterrar” num bairro social, implantado então nos terrenos onde hoje se situam o Hospital de Santa Maria e o Estádio Universitário.


Barracas da Feiteira ao Pote D'Água. Não consegui saber nada sobre este bairro de barracas, até porque existem mais locais com o nome de Feiteira em Lisboa. Mas, eu sei que existiu porque os meus pais quando vieram de Pias no Ribatejo, foram para aqui morar (isto nos anos 30), antes de irem para a Quinta da Calçada. 1940. Eduardo Portugal.

Moradores da Feiteira ao Pote D'Água. Foto sem data. Esta foto pertencia a minha mãe. mas nem eu, nem os meus irmãos sabemos a que diz respeito. Talvez alguma pessoa da família ou a partida para a Quinta da Calçada. (foto de francisco grave)

Tratava-se de um “bairro” sossegado e calmo, ocupado por gente trabalhadora, a maioria expropriada pelas obras públicas do Estado Novo. As pessoas eram “vigiadas”, nos seus comportamentos, pelo Fiscal do Bairro e pelo seu Ajudante, ambos polícias reformados; no interior do Bairro, existia uma esquadra da PSP, com o respectivo comandante e vários guardas permanentes, que, dia e noite, velavam pela tranquilidade pública e privada.

Esquadra da Policia, vista da escola dos rapazes. 1939. Eduardo Portugal.

Existia um infantário, onde as Mães deixavam os seus bébés, “de borla”; existia um posto médico, com médico e enfermeiras permanentes, com consultas e tratamentos gratuitos; existiam várias “assistentes sociais” para auxílio material e moral aos mais necessitados; existia a “praça”, um edifício relativamente grande, com várias bancadas de frutas e legumes, talho, peixaria e mercearia, no qual, ao menos uma vez por ano, se organizavam, com os “talentos” do bairro, peças de teatro; existia o “lava-roupa” público, com dezenas de tanques de lusalite, e o respectivo estendal, onde se punha a roupa a secar e a “corar”. Por isso, era proibido estender a roupa nos quintais e também era vedado ter animais nos mesmos quintais.

A Praça (Mercado) da Quinta da Calçada. 1940. Eduardo Portugal.

Existiam também duas escolas primárias, a masculina para os rapazes e a feminina para as raparigas, colocadas ambas estrategicamente, uma na estrema norte e outra na estrema sul do bairro. As escolas tinham ambas cantinas, onde todos os dias era servida a sopa (“a sopa do barroso”), precedida de uma fétida colher de óleo de fígado de bacalhau, que a “miudagem” engolia com notório contragosto, acompanhada de imediato com um ou dois gomos de laranja, para assim controlar o vómito. As professoras, em regra muito dedicadas, acompanhavam os alunos desde a primeira até à quarta classe; de tempos a temos, as salas de aula eram abruptamente invadidas por pessoal de enfermagem que, ali mesmo, aplicava aos “gaiatos” as vacinas “da ordem”, de que não era possível fugir.

Bairro da Quinta da Calçada: Centro Social, Igreja e Infantário. 1940. Eduardo Portugal.

O capelão – frades franciscanos – e as catequistas – senhoras “da alta” que voluntariamente a isso se dispunham – davam as aulas de catequese a todos os alunos: por isso, aí fiz a primeira comunhão, o crisma e a comunhão solene, tudo solenidades acompanhadas de opíparos lanches. As casas, construídas de lusalite, tinham, todas elas, um pequeno quintal na frente, que o meu Pai se esmerava em cuidar: nele semeava as “ervinhas” alentejanas, o tomate, o feijão, o alface, o pepino, por entre ervilhas-de-cheiro, cravos e rosas. A electricidade era “de borla”, mas só funcionava até às 10 da noite; depois disso, acendia-se o candeeiro a petróleo (quantas vezes não fui eu chamado a limpar, com pedaços de folha de jornal, as enegrecidas “chaminés” de vidro...). A água também era “de borla” e podia-se usar “à discrição”, até para regar as plantas do quintal. Os jardins públicos eram esmeradamente tratados pelos jardineiros contratados pela Câmara e mantinham-se impecáveis durante todo o ano: Ai do miúdo que pisasse a relva, cortasse as flores ou destruísse as sebes vivas!

Alameda que vinha desde o mercado até à esquadra. 1940. Eduardo Portugal.

As rendas eram baixas, mas ai de quem as não pagasse!... Era despejado de imediato, sem apelo nem agravo. As pessoas eram pobres, mas educadas e brandas: Se alguém tivesse o descaramento de “violar as regras” era automaticamente “deportado” para um dos bairros da periferia, nomeadamente para o da Boavista. Mas, enquanto lá vivi, não tive notícia de qualquer “deportação”. Lembro-me da minha vizinha Guida: era uma jovem corporalmente muito bem dotada, que todos os dias abalava de casa, pela tardinha, bem vestida e muito perfumada, para o seu “trabalho” – todo o mundo sabia a “profissão” dela, mas toda a gente a tratava com o maior dos respeitos. Ao fim-de-semana, o jornaleiro circulava pelas ruas, logo pela manhã, gritando, alto e bom som: “Traz o crime! Traz o crime!”. Quem sabia ler corria a comprar o Diário de Notícias, que naquela altura custava dois tostões.

O Petrolino, aqui até já vendia bilhas de gás. 1976 (foto de francisco grave)

Todos os dias o bairro era visitado pelo “pitrolino” que, no dorso da sua mula, trazia e vendia o petróleo, o azeite, o vinagre, o sabão, as escovas, os piassabas, os tachos e as panelas de alumínio. Ao domingo de manhã, era a vez da “contrabandista” bater de porta em porta: era ela quem vendia, a prestações, os lençóis e as mantas, os cortinados e as camisas, os quadros do Coração de Jesus, da Senhora de Fátima e do Menino Jesus de Pádua  os rádios portáteis e os relógios de corda, entre outras coisas. Entregava e recebia: o meu Pai ia-lhe pagando as “compras” em prestações semanais de dez escudos, que ela escrupulosa e pontualmente registava no seu “rol”. O meu Pai – ávido devorador de letras -, além de comprar regularmente o jornal diário, assinava os romances, que, naquele tempo, eram vendidos aos “pedacinhos” – um cadernito em cada semana – e mais tarde encadernados. Nos intervalos da escola e dos folguedos, eu também lia o jornal e os “folhetos” dos romances caseiros. Mas o bairro também tinha, no “centro social”, uma pequena biblioteca, que emprestava os livros a quem o pedisse: Eu fui pedindo e fui lendo (Júlio Verne e outros) até que um dia a assistente social se virou para mim e me disse: “António, já não te empresto mais livro nenhum. Tu já os leste todos”. Virei-me para a “carrinha” da Gulbenkian que todas as semanas parava à minha porta e, destarte, não interrompi as minhas leituras. Talvez por isso, na escola primária era o único aluno que, nos ditados, dava sempre “zero erro”: toda a gente dizia que, da primeira à quarta classe, fui sempre o melhor aluno da escola.

Carrinha/Biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian. 1964. Garcia Nunes.

Os guardas da PSP, os fiscais do bairro, os jardineiros, as assistentes sociais, as professoras, as catequistas – nunca me maltrataram, nem por actos, nem por palavras, nem por gestos, nem por atitudes. Não havia droga, nem criminalidade, nem faltas de respeito: por tudo isso, garanto que, embora não tendo fartura de bens materiais, fui, naquele bairro, uma criança muito, mas mesmo muito, feliz. Ademais, nas áreas públicas e fora do período das aulas, ninguém nos impedia de brincar com as meninas. Oh! Quantas saudáveis brincadeiras eu mantive com uma gentil menina mais ou menos da minha idade que morava na casa em frente da minha: em regra, eu era – claro! – o médico, e ela era – claro! – a enfermeira. E, naqueles tempos, os médicos, quanto a nós, davam muitos beijinhos nas enfermeiras, e vice-versa...

Agora, com todas estas alterações, já não sei...

Só sei que as minhas netinhas, de cinco e de três anos respectivamente, me confidenciam, de vez em quando, que dão beijinhos nos seus namorados:

- Vôvô, hoje dei um beijinho ao Tiago, diz-me uma, em segredo.

- Vôvô, e eu hoje também dei um beijinho ao Tomás, diz-me a outra, também em segredo.

- É um segredo, vôvô!

- Pois claro, é um segredo, o vôvô não conta a ninguém.

Afinal, as “coisas” não mudaram tanto como por vezes por aí se diz.

Só é pena, muita pena, que os “bairros sociais” de hoje nada tenham a ver com os da minha meninice. E com um bocadinho de esforço as “coisas” podiam mudar muito e muito depressa. O que falta é as pessoas aprenderem, de novo, a ser FELIZES.»

António Gamito em Lírio do Campo


 Propaganda da CML da altura, copiada de uma revista municipal de 1940.

 Propaganda da CML da altura, copiada de uma revista municipal de 1940.

Vista aérea copiada de uma revista municipal de 1940.



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)




10 de novembro de 2012

A Bola é redonda e os estádios quase!

Em redor do Bairro da Quinta da Calçada



Era o tempo dos 3 F's (FADO, FUTEBOL E FÁTIMA) e eu nascido no Bairro da Quinta da Calçada, desde pequeno que tinha o futebol por desporto favorito e tinha a sorte de existir uma meia dúzia de estádios em redor, o que fez com que tenha visto futebol a rodos desde a minha infância (vi jogar o grande Eusébio, dezenas de vezes) até adulto, quando deixei de vez de ir a estádios e não me arrependo. A única vez que tive vontade (mas não fui), foi quando o Maradona veio jogar contra o Sporting. Lembro-me de em miúdo ter visto muitos jogos no antigo campo do Sport Lisboa e Benfica, cujas bancadas eram todas em madeira (à inglesa) e que à muitos anos atrás tinha pertencido ao Sporting. Eram terrenos alugados tanto por um clube, como pelo outro. 


Era nesta zona de árvores que existia uma clareira, um pouco mais 
para esquerda, onde nós putos jogámos grandes jogatanas. 1976. 
Foto francisco grave.

Dizia-se nesses tempos (décadas de 10 a 40), que os clubes e os jogadores andavam com a baliza às costas, porque andavam sempre a mudar de um lado para outro. Esse campo de bancadas em madeira ficava onde hoje é a estação do metro. Recordo-me de assistir nos anos 60, à estreia do irmão do Eusébio pelas reservas do Benfica (não jogava grande coisa). Havia ainda um outro campo de futebol por perto, construído nos anos 50; o do CIF (Clube Internacional de Futebol), que durou até 1970/71. Havia também o campo do Palmense e o do estádio universitário, que servia também para o râguebi. Anos mais tarde, o CDUL construiu dois campos de futebol, junto à segunda circular que o pessoal da Quinta da Calçada aproveitava para fazer uns "treinos". Estes eram os campos de segunda "classe", os de primeira eram o do Sporting, Estádio de Alvalade e acima de todos, o Estádio da Luz, casa do Glorioso. Era, o tempo em que bastava ir a um estádio e pedir; "Ó Senhor, deixe-me entrar consigo" e era fácil entrar pela mão de um adulto. Vi muitos jogos dessa maneira e ainda havia o "campo da bola" da Quinta da Calçada, onde em miúdos, jogávamos logo que saiamos da escola, enquanto os nossos pais não vinham do trabalho e passávamos tardes inteiras a jogar à bola ao fim de semana. Só poupávamos este "estádio", durante o inverno.

Em primeiro plano os campos de futebol do Benfica (na altura). Ao fundo o estádio 
de Alvalade ainda em construção nos inícios dos anos 50. Foto do jornal da praceta.

Estádios do Campo Grande 


«O Campo Grande foi desde finais do século XIX, o principal local da cidade de Lisboa onde se realizavam importantes competições desportivas de automóveis, atletismo, ciclismo, motociclismo, hipismo, tiro, futebol e até provas de aviação.
Entre 1906-1917, o clube dos "leões" fixou-se no sítio das Mouras (Alameda). O local era propriedade do Visconde de Alvalade. De 1917 a 1937, o Sporting alojou-se no Campo Grande com contrato de arrendamento. Em 1937, o Sporting passa então para o Stadium de Lisboa, onde permaneceu até 1947.


Corrida de automóveis no Campo Grande, organizada 
pela Fiat nos inícios do século XX. Joshua Benoliel. 

A história do Sporting está ligada ao Campo Grande. Na sua origem está o "Campo Grande Football Club", criado em 1904, cuja sede ficava justamente no topo norte do Campo Grande. É deste Clube que em 1906 irá surgir o SCP. Foi nesta zona que em 1912, foi construído o estádio do Lisboa Futebol Clube. Este recinto foi ampliado em 1914, sendo então alugado ao SCP que após grandes melhorias o voltou a inaugurar em 1917. Apesar de ser um dos raros estádios de Lisboa, as condições estavam longe de serem satisfatórias. Em 1937 SCP acaba por abandoná-lo, alugando um outro  um pouco mais a norte (o Stadium de Lisboa) que mais tarde se tornaria o estádio José de Alvalade.

Este foi o primeiro campo e sede do Sporting Clube de Portugal em 1907.

Campo do Sporting Clube de Portugal no Campo Grande. 1939.

 Entrada para o campo do Sporting Club de Portugal e restaurante 
do Campo Grande (actual Churrasqueira). 1937. Eduardo Portugal.

O estádio abandonado pelo SCP em 1937 é alugado pelo SLB em 1940. Este Clube realiza no mesmo importantes melhoramentos. No dia 5 de Outubro de 1941, o Benfica inaugurava o seu magnífico estádio de futebol conhecido por estádio do "Campo Grande".
Em 1946 o SLB constrói neste local uma Pista de Atletismo e um outro campo para a prática de diversas modalidades, para além de um Campo de Basquetebol, um Court de Ténis e um Campo de Tiro. Uma obra gigantesca em terrenos alugados.
Em 1954 mudou-se do Campo Grande para Benfica (Luz) onde construíu um imponente estádio, o maior de Portugal. Só em 1971 é que o SLB abandonou definitivamente o seu parque desportivo no Campo Grande, junto à actual estação do metropolitano.»

In, jornalpraceta.no.sapo.pt

Entrada para o campo de futebol do Sport Lisboa e Benfica, 1965. Artur Goulart. 

Caminho para o campo de futebol do Sport Lisboa e Benfica, depois 
da entrada, com o estádio de Alvalade ao fundo.1969. João Goulart.

 Estrada de Telheiras com as entradas laterais do campo do Sport Lisboa e Benfica. 1969. João Goulart.

Estrada de Telheiras com as entradas laterais do campo do Sport Lisboa e Benfica. 
As árvores à esquerda pertenciam ao olival do CIF. 1969. João Goulart.

Entrada principal do Antigo Campo do Sport Lisboa e Benfica. 1969. João Goulart. 

Inicio da estrada de Telheiras, vendo-se à esquerda A Sanzala, o muro branco 
dava para o Antigo Campo do Sport Lisboa e Benfica. 1969. João Goulart.

 O campo principal de futebol do Clube de Futebol Palmense. 1962. Artur Goulart.

 O campo secundário de futebol do Clube de Futebol Palmense. 1962. Artur Goulart.

Campo principal do Estádio Universitário, visto do Hospital de Santa Maria. Mais tarde, fizeram mais dois campos junto à segunda circular, que o pessoal da Quinta da Calçada, aproveitava para lá jogar (sempre eram relvados). 1961. Artur Goulart.


(Fotos Arquivo Fotográfico da CML)



3 de novembro de 2012

O CIF do Campo Grande

Em redor do Bairro da Quinta da Calçada


Os apanha-bolas de ténis do CIF

Tinha mais ou menos este tamanho de gente (aqui estou com 7 anos com bom aspecto porque era o casamento da minha irmã Emília em 1961), quando apanhei bolas de ténis para o senhor que está na foto ao lado. Chama-se João Lagos, nasceu em 1944, portanto tem mais 10 anos que eu. Quando apanhei bolas para ele (deve ter sido por volta de 1963/64) no CIF, tinha ele 18/19 anos e eu 9/10 anos. Foto de António Pedro Ferreira do jornal Expresso. Na foto da direita está Roger Federer num campo de terra batida rodeado de apanha-bolas com equipamento próprio e até bonés e sapatos de ténis. No CIF por volta de 1963/64 não tínhamos nada disto, excepto o campo que era parecido e até as bolas eram de outra cor (brancas). Hoje até cursos existem para apanha-bolas; mudam-se os tempos, como dizia o Camões. Foto encontrada em www.tenis.pt

O meu primeiro "trabalho" na vida foi a apanhar bolas de ténis no CIF, eu e outros miúdos da Quinta da Calçada e também de Telheiras. Devia ter uns oito anos quando comecei e deve ter durado até quando saí da escola que foi aos 10 (isto em 1964). O CIF era e é a sigla de Clube Internacional de Futebol e as suas instalações eram no fim do Campo Grande, começavam ao lado da Sanzala, onde mais tarde se construiu o bingo do Sporting e ia até á azinhaga dos Ameixiais (nem sabia que se chamava assim), que é aquela que vem do antigo Canil até Telheiras e que separava o CIF do colégio Alemão, e ainda pela Segunda Circular e pela estrada de Telheiras a norte. A entrada principal era por trás da Sanzala e ficava perto dos portões do antigo campo de futebol do Benfica. Tinha ainda outra entrada em Telheiras Velha e outra de frente para a segunda circular e que era por onde nós entrávamos quando iamos apanhar bolas ou então saltávamos o muro.


Noticias sobre o CIF em 1968 e 1969 e que dão para ter uma ideia do que era esse clube; na noticia de 1969 já se anuncia a saida do Campo Grande e a ida para o Monsanto onde ainda estão, mais o emblema do CIF encontrado na net. Clique para poder ler.

O CIF tinha vários campos de ténis (uns seis se bem me lembro), um deles o nº 1 tinha uma bancada com uma parte coberta, tinha um campo de futebol: aqui vi várias vezes antigas glórias do Benfica e Sporting que jogavam juntos numa equipa chamada SOV; tinha um olival (nós chamávamos-lhe assim) enorme, cheio de árvores de vários tipos e de vegetação densa. Das coisas que recordo bem era que além de apanhar as bolas, também as tínhamos de as ir procurar ao olival quando elas saiam fora do campo (é que havia cada nabo a jogar), o que fazia às vezes a gente dizer que não as encontrava para eles se chatearem e irem embora mais cedo e nós podermos ir para casa e levar as bolas "perdidas". Tínhamos de passar o rodo para alisar o campo, varrer e pintar as linhas, montar a rede (ajudar), regar, etc. Lembro ainda de um dos jogadores, um ricalhaço? chamado Neto? que tinha um mau perder danado e que quando perdia uma jogada mandava boladas com força nos apanha bolas. Ninguém o gramava.


Muro do CIF de frente para a segunda circular, que estava quase sempre fechado e que era por onde nós entrávamos ou saltavamos quando íamos apanhar bolas.  Ao fundo é o final do Campo Grande e o edifício grande á direita é o antigo Colégio de São Vicente de Paulo onde em miúdo ia todos os anos á praia em excursões organizadas por umas senhoras religiosas de lá. O edifício que se vê através do portão era as traseiras dos balneários, bar e escritórios e nesse espaço das traseiras, foi construído a certa altura um campo de mini-ténis (creio que era só para os apanha-bolas) que era jogado com umas raquetes de madeira a imitar as de ténis a sério. 1962. Artur Goulart.

Foi ali que dei as minhas primeiras fumaças em cigarros e cigarrilhas e também em bebidas de vários géneros que as pessoas que iam lá jogar (para nós era tudo gente rica), ás vezes deixavam por lá á mão de semear. Havia um encarregado que creio que se chamava Manuel (que vivia lá) e que era mau como as cobras e que tinha um cão também muito mau que ele só dominava á pancada com um pau. Este Manuel mandou-me embora umas duas ou três vezes (geralmente por responder torto) e lá tinha de ir a minha mãe Maria dos Anjos pedir por favor para eu voltar já que os tostões que eu trazia para casa faziam muita falta.



Campo de futebol do CIF em meados dos anos 60. Era aqui que se realizava um campeonato amador?, onde vi jogar as antigas estrelas do Benfica e do Sporting numa equipa chamada SOV. É pena mas não consegui nenhuma foto dos campos de ténis, nem informações sobre o SOV. 1961. Artur Goulart.

Havia também o senhor Armando que era uma espécie de faz tudo mas era um homem razoável e não nos causava problemas. O dia de receber era á sexta feira á noite (pelo menos no inverno) pelas 19/20h, e o que recebíamos tinha a ver com os jogos que fazíamos apanhando bolas e que eram contados á semana, não me recordo bem mas devia ser uma coisa entre 5 ou 10 escudos por semana, talvez um pouco mais e antes de regressarmos a casa íamos a uma taberna de Telheiras comprar alguma coisa doce ou bonecos da bola com esse dinheiro, era a maneira de ficarmos com alguma coisa para nós, coisas de putos.



Instalações (balneários) do campo de futebol do CIF, acabadas de construir em meados dos anos 50. 

Nesse tempo a minha escola primária (que foi a de Telheiras e não a da Quinta da Calçada) só tinha horários de manhã ou de tarde (não faço ideia do porquê) e isso fazia com que eu fizesse muitos jogos de ténis, daqueles que os jogadores marcavam horário e pediam apanha bolas. Um dia, calhou-me apanhar bolas logo de manhãzinha para o João Lagos, que veio a ser o maior jogador de ténis de sempre em Portugal (é o que dizem). Nessa altura ele devia ter uns 18/19 anos e o parceiro não veio; então ele disse para mim "pega numa raquete e manda-me umas bolas", que era para poder "puxar". A certa altura "puxou" tanto e com tanta força que me arrancou a raquete das mãos e mandou-a contra a rede do fundo, o que me valeu uns gritos de descompostura, mas geralmente era uma pessoa simpática. Nessa altura o João Lagos estava a despontar no ténis como a grande promessa, foi tricampeão nacional de ténis (1965, 1966 e 1967), (quer isto dizer que quando deixei de apanhar bolas ele foi logo a seguir campeão por três vezes), e é sportinguista (o que é pena). O campeão naquela altura chamava-se (creio?) Vaz Pinto mas que me lembre não ia ao CIF (passados tantos anos posso estar a baralhar as recordações).



Azinhaga do Ameixiais, parte de Telheiras de que já não existe vestígios, pouco tempo depois de ter sido cortada pela construção da segunda circular. À esquerda ficava e fica o colégio Alemão que tinham começado a construir por esta altura, a parte da árvores á direita eram terrenos do CIF, junto do seu campo de futebol. 1961. Artur Goulart


Azinhaga do Ameixiais, parte do hipódromo, tiradas mais ou menos do mesmo local com 50 anos de diferença (1961, Artur Goulart e 2009). Na foto actual em que se vê uns vestígios da antiga azinhaga; começa onde estão os caniços á direita e separa o hipódromo dos campos do CDUL e vai até á entrada principal do hipódromo e creio que já não dá passagem para nada. Foto a cores feita com o google view.

Das coisas boas que fizeram no CIF foi construírem por detrás dos balneários do ténis um campo de mini-ténis, que se jogava com umas raquetes de madeira. Aqui deixavam jogar os apanha bolas quando não havia jogos. Para acabar vou contar uma "aventura" onde estive envolvido e que deu brado durante anos, que foi o "assalto" que um bando de putos entre os 8 e os 12 anos (mais coisa menos coisa) anos fez ás instalações da Sanzala. A Sanzala era um Night-Club e restaurante só para gente fina e cuja construção era uma cubata enorme, ora a Sanzala, tinha um galinheiro fabuloso com galinhas, patos, etc e até faisões. Este galinheiro fazia paredes meias com o olival do CIF e só uma rede os separava. e nós fomos aos poucos arrebentado a rede que era grossa e nós uns putos, e um dia fizemos o "assalto".



 Entrada da Sanzala, que tinha a forma de uma cubata enorme e vista dos jardins. 1965. Artur Goulart.

Já não me lembro do que surripiámos nem de como foi que aquilo se iniciou, o mais certo foi algum dos mais velhos dar a ideia e os outros foram atrás, mas sei que tirámos muita coisa (galinhas e patos, etc) e levámos para casa. Não sei como eles descobriram (devem ter visto o buraco na rede e deduzido que os apanha bolas estavam metidos nisso) ou então foi quando chegámos á Quinta da Calçada, aquilo espalhou-se e como ainda havia posto da policia a certa altura estávamos todos de cana. Não me recordo de mais pormenores a não ser de só ter saído do posto lá para as oito da noite quando os meus pais chegaram do trabalho e tiveram de ir pedir dinheiro emprestado para pagarem a multa, que foi bastante. Ah, e também da tarei que levei.

Noticia em A Capital sobre a mudança próxima do CIF, de Telheiras para o Monsanto em Outubro 1971.

Planta das novas instalações do CIF em Monsanto. 1971. Noticia em A Capital.


(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)


21 de outubro de 2012

Os “Saltos de Cavalos" ou O Hipódromo do Campo Grande

Em redor do Bairro da Quinta da Calçada

O Pai do João Santos (João Téte), também chamado João Santos e que trabalhou durante muitos anos no Hipódromo do Campo Grande como Tratador de Cavalos (não sei se o nome correto é este). O cavalo é magnifico apesar de lesionado na pata esquerda dianteira. A foto é de 1970 mais coisa menos coisa.
Foto de João Santos



Os “Saltos de Cavalos”, era como nós miúdos do Bairro da Quinta da Calçada chamávamos ao hipódromo. Tenho uma vaga memória de ter lá visto corridas de trote, devia ser muito miúdo 6 ou 7 anos (por volta de 1960/61) e também corridas de cavalos à volta da pista. Mas devem ter desaparecido por aqueles tempos porque as recordações depois disso era só dos saltos de cavalos; o hipismo propriamente dito. A minha mãe fez lá alguns piqueniques ao domingo mas não tenho memória disso. Mas as minhas irmãs recordam-se bem. Naqueles tempos, com mais ou menos dificuldade conseguíamos ir até perto das cavalariças e uma vez um senhor colocou-me em cima de um cavalo (foi a única vez na minha vida). Aqui trabalhava o pai do João Téte e mais abaixo coloco uma foto dele com um cavalo. Era um tratador de cavalos (será este o nome?). Conhecia muito bem todos aqueles terrenos porque passava lá todas as manhãs para ir para os meus primeiros trabalhos que foram no Campo Grande, Alvalade e Av. Rio de Janeiro e ia a pé e vinha, isto com 11 e 12 anos. Aqui há tempos atrás (dois ou três anos), ainda consegui ir de carro até ao portão do hipódromo, hoje já não se consegue. Mais abaixo coloco algumas informações sobre este e outros hipódromos, mas tenho dúvidas se as datas de funcionamento estarão corretas.


A foto deve ser de entre 1937 a 1942, o aeroporto estava em construção (foi inaugurado em 1942), mas estas coisas muitas vezes abrem antes de estarem totalmente prontas. Tem alguns locais assinalados e como podem ver o Bairro de Alvalade ainda não estava construído. Fotógrafo não identificado. Clique para aumentar esta e as outras.


«O antigo Jockey Club (hipódromo), juntamente com o Asilo de D. Pedro V para a Infância desvalida e o Museu Rafael Bordalo Pinheiro, fazem parte de um universo de infra-estruturas culturais do período tardo-liberal e I República, constituindo os antecedentes legítimos das futuros pólos sociais e culturais do Estado Novo para a zona do Campo Grande. O antigo Hipódromo era também designado por Jockey Club. O projecto de construção de um Hipódromo foi apresentado à Câmara Municipal de Lisboa, em 1918, pela Sociedade Hípica Portuguesa. A ideia de construção de um Hipódromo no Campo Grande, consta já do Plano Geral de Melhoramentos da Capital (1904), plano considerado utópico para a época, idealizado pelo engenheiro e professor de engenharia Ressano Garcia mas não concretizado.»
(In, Arquivo Municipal de Lisboa)


A foto é anterior a 1942, e bastante, eu creio que seria do fim dos anos 20 ou meados da década de 30. A legenda que acompanha a foto diz: "Panorâmica do Hospital Júlio de Matos (Lisboa) e Hipódromo do Campo Grande (Lisboa)". Mas é estranho que os terrenos à direita, que parecem de um hipódromo seja os do hipódromo do Campo Grande, que ficavam um bocado mais distantes do hospital. Parece que não existia? ainda a Av. do Brasil. Quem souber que esclareça, embora o pequeno texto que coloco a seguir, ajuda a dar um pouco de luz a esta história. Foto de José Artur Leitão.



Hospital Júlio de Matos - Historial

«Embora as plantas dos edifícios datem de 9.10.1913, só foi construído na totalidade após quase trinta anos. A edificação contemplou duas fases de construção: a primeira, entre 1914 e 1932, onde o presidente da comissão foi o professor Júlio de Matos e o arquitecto da obra Leonel Gaia; a segunda, entre 1933 e 1942, tendo como presidente o professor Sobral Cid e o arquitecto Carlos Chambers Ramos. Como Portugal entrou na I guerra mundial e isso levou a uma redução das verbas, com enfraquecimento dos trabalhos na obra, a 12.4.1922, quando faleceu o mentor da instituição, esta estava longe de estar concluída.« 
(In, marcasdasciencias.fc.ul.pt)

«Nota enviada por José Quintanilha Manta, museólogo e historiador, a 12.8.2009: "As plantas dos edifícios datam de entre 1911 e 1914. Foi construído aos poucos e acabado de construir já perto da sua inauguração. Salgado Araújo não deixou nenhuma deixa testamentária nem nenhum testamento a dizer algo sobre a doação que terá realizado. Até hoje, e depois de ter consultado mais de 18000 páginas sobre a vida do mesmo, e histórico do Hospital, não encontrei nenhuma prova dessa doação. O Hospital não começou a ser construído depois da doação, antes sim, com o fundo que ao longo dos anos foi criado para o tratamento e assistência aos alienados, em 1875, pelo rei D. Carlos."» 
(In, marcasdasciencias.fc.ul.pt) 


Corrida de cavalos no hipódromo do Campo Grande. 1913. Joshua Benoliel.

«O episódio das "Corridas no Hipódromo", em Os Maias, de Eça de Queirós, é uma verdadeira sátira ao desejo de imitar o que se faz no estrangeiro, por um esforço de cosmopolitismo, e ao provincianismo do acontecimento. As corridas permitem, igualmente, apreciar de forma irónica e caricatural uma sociedade burguesa que vive de aparências. Não faziam parte das tradições portuguesas como, por exemplo, as touradas, mas surgiram por imitação do que sucedia noutros países. Eça de Queirós constrói este episódio para satirizar a mentalidade e o comportamento da alta burguesia lisboeta, onde se percebe um verdadeiro contraste entre o ser e o parecer. Toda a situação parece ridícula, pois o que se pretendia requintado não o era: falta entusiasmo pelo acontecimento, as pessoas apenas comparecem por ser mais um local social; falta gosto à assistência feminina, que "nada fazia de útil", e os homens surgem "numa pasmaceira tristonha", sem motivações visíveis.» 
In, auladeliteraturaportuguesa.blogspot.pt


Eça de Queiroz em Os Maias
As corridas de cavalos em Belém (excerto) 


«(...) Aquela corrida insípida, sem cavalos, sem jockeys, com meia dúzia de pessoas a bocejar em roda, dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o Jockey-Club rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre dum divertimento que não estava nos hábitos do país. Corridas era para se apostar. Tinha-se apostado? Não, então histórias!... Em Inglaterra e em França, sim! Aí eram um jogo como a roleta, ou como o monte... Até havia banqueiros, que eram os bookmakers... Então já viam! 
E como o marquês, pousando o copo, e querendo acalmar o general, falava do apuramento das raças, e da remonta, - o outro ergueu os ombros, com indignação: 
- Que me está você a cantar! Quer você dizer que se apura a raça para a remonta da cavalaria?... Ora vá lá montar o exercito com cavalos de corridas!... Em serviço o que se quer não é o cavalo que corra mais, é o cavalo que aguente mais... O resto é uma história... Cavalos de corridas são fenómenos! São como o boi com duas cabeças... Então histórias!... Em França até lhe dão Champagne, homem!... Então veja lá!... 
E a cada frase, sacudia os ombros, furiosamente. Depois, dum trago, esvaziou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em conhecer o Sr. Cliford, rodou sobre os tacões, saiu, bufando, entalando mais debaixo do braço o chicote - que tremia na ponta como avido de vergastar alguém.»

«Nesse momento, em redor, romperam exclamações de troça: era um cavalo solitário que chegava, num galope pacato, passava a meta sem se apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande numa tarde de domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquela dum cavalo só - quando ao longe, como saindo da claridade loura do sol que descia sobre o rio, apareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, arquejando, num esforço doloroso, sob as chicotadas atarantadas dum jockey de roxo e preto. Quando ela chegou, enfim, já o outro gentleman-rider voltara da meta, a passo, pachorrentamente, e estava conversando com os amigos, encostado à corda da pista. 
Todo o mundo ria. E a corrida do Prémio d'El-Rei terminou assim, grotescamente.
Ainda havia o Prémio de Consolação - mas agora desaparecera todo o interesse fictício pelos cavalos. Perante a calma e radiante beleza da tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a pesagem, cansadas da imobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais cadeiras: aqui e além, sobre a relva pisada, formavam-se grupos alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapéu: e palrava-se, como numa sala de inverno, fumando-se familiarmente.»

Alunas de equitação do prof. J. Mirandano no hipódromo do Campo Grande. 1913. Joshua Benoliel. 

«As primeiras corridas de cavalos em Portugal ocorrem em Évora e datam de 1868. Cinco anos depois, organizam-se corridas em Sintra (na Granja do Marquês) e na Golegã. No ano seguinte, em 1874, constrói-se o Hipódromo de Belém e organizam-se corridas em Julho e Outubro. Em 1875, o Clube Equestre, fundado em 1873, muda o nome para Jockey Club. Em 1881, fazem-se as primeiras corridas nas Alamedas do Campo Grande, mas o entusiasmo popular é fraco. Dois anos depois extingue-se o Jockey Club. A "Sociedade Promotora de Apuramento de Raças Cavalares", que arrematara os bens do Jockey Club, ainda realiza algumas corridas, mas o público revela-se desinteressado.» 
In, auladeliteraturaportuguesa.blogspot.pt


Festa da Cavalaria organizada pelo jornal O Século, no Hipódromo do Campo Grande. Repare-se por detrás do militares, nos operários que estavam a construir a bancada, também a posar para a foto. 1933. Fotógrafo não identificado.

«O primeiro hipódromo de Lisboa situava-se em Belém: «Local também utilizado para paradas militares e exercícios do mesmo teor. O Hipódromo de Belém era ocasionalmente visitado por entidades oficiais que ali se deslocavam para assistir ou participar nas referidas manifestações. Situado entre Belém e o Bom Sucesso, este largo espaço serviu para reunião da alta sociedade lisboeta, tendo-se aí efectuado diversas corridas de cavalo, para além de tantas outras festas de índole civil e social. Como tal, o hipódromo depressa adquiriu um estatuto muito particular, tornando-se palco adequado para as manifestações da "sociedade elegante"». Havia outro no Parque da Palhavã (entre 1911 e 1918, não sei se estará correto), tendo sido depois transferido para Sete Rios onde permaneceu até 1930. A partir desse ano a Sociedade Hípica Portuguesa encontra os seus terrenos actuais no Campo Grande, ocupando a localização do antigo Jockey Club.» 
(In, Arquivo Municipal de Lisboa)

Festa da Cavalaria organizada pelo jornal O Século, no Hipódromo do Campo Grande. Nas duas primeiras fotos pode ver-se que estava-se a construir a bancada e repare-se também na máquina de filmar. 1933. Fotógrafo não identificado.

 Festa da Cavalaria organizada pelo jornal O Século, no Hipódromo do Campo Grande. 1933.
Fotógrafo não identificado.

 Festa da Cavalaria organizada pelo jornal O Século, no Hipódromo do Campo Grande. 1933.
Fotógrafo não identificado.


Desafio de Pólo no Hipódromo do Campo Grande. 1934. Fotógrafo não identificado.
Foto do Centro Português de Fotografia


 Desafio de Pólo no Hipódromo do Campo Grande. 1934. Fotógrafo não identificado.
Foto do Centro Português de Fotografia

Desafio de Pólo no Hipódromo do Campo Grande. 1934. Fotógrafo não identificado.
Foto do Centro Português de Fotografia

Exercícios preparatórios para a parada do 28 de Maio, por filiados da Mocidade Portuguesa 
masculina e feminina no campo do Jockey Club. 1938.  Fotógrafo não identificado.
Foto do Centro Português de Fotografia

Anuncio no Diário de Lisboa em 1958. Nesta altura havia apostas.

Anuncio em A Capital 1960. Já não havia apostas?.

Entrada para as bancadas do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Vista lateral das bancadas do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Zona de apostas ? do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Vista da pista do Hipódromo do Campo Grande e ao fundo o Estádio do Sporting. 1961. Artur Goulart.

Azinhaga dos Ameixiais que separava o Hipódromo (à esquerda), dos terrenos do Estádio Universitário. Esta parte da Azinhaga ainda existe e pode ser vista quando se passa na 2ª circular, mas já não tem qualquer acesso. 1961. Artur Goulart.

 Zona de árvores por trás da bancada do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Não tem conta quantas vezes atravessei esta estrada de terra que vinha 
do Canil e do Hipódromo e ia até ao Campo Grande. 1961. Artur Goulart. 

Vista da pista do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Aqui, debaixo destas árvores e de outras era onde minha mãe fazia de vez 
em quando uns piqueniques, por volta desta época. 1961. Artur Goulart.

Vista das cavalariças do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

Entrada para as zonas privadas do Hipódromo do Campo Grande. 1961. Artur Goulart.

A bilheteira do Hipódromo (debaixo de uma árvore por causa do calor) e um edifício que não 
tenho a certeza se pertencia ao Hipódromo ou ao Canil que ficava ali perto. 1961. Artur Goulart.

Hipódromo do Campo Grande, visto da 2ª circular. 1961. Artur Goulart.

Terrenos do Hipódromo, visto da 2ª Circular vendo-se ao fundo 
Faculdade de Letras na Cidade Universitária. 1962. Artur Goulart.

 Azinhaga dos Ameixiais, visto da 2ª Circular. 1962. Artur Goulart.

 Vedação de arame do Hipódromo do Campo Grande. 1962?. Artur Goulart.

Pavilhão (picadeiro) do Hipódromo do Campo Grande. 196?. Artur Goulart.

Como já se viu pelas fotos deste post, o Hipódromo do Campo Grande servia sobretudo, para uma classe social se reunir e divertir e também para os seus protectores e futuros seguidores. Tal como, Eça os descreve em Os Maias. Aqui foto copiado do jornal A Capital referente ao campeonato de hipismo da Mocidade Portuguesa.

Corridas de trote (ainda vi algumas).
Foto copiada de A Capital em 1970.

 Noticias em A Capital em 1970 e 1971.


A Sociedade Hípica Portuguesa


«Fundada em 1910, tem como objectivo promover o desenvolvimento e o interesse pela equitação e pelo hipismo. Na escola existem vários níveis de aprendizagem, para além das aulas convencionais de equitação oferece ainda novas modalidade: volteio de competição, disciplina de elevada expressão estética e exigência física. A Sociedade Hípica Portuguesa (SHP) ocupa o seu lugar na história da cidade de Lisboa, de Portugal e do hipismo nacional. A 23 de Março de 1911, um grupo de cavaleiros funda a SHP. (...) A 1 de Maio daquele ano foi inaugurada em Lisboa, a primeira sede da Sociedade Hípica Portuguesa, na Rua Ivens. O primeiro hipódromo situava-se no Parque da Palhavã (1911-1918), tendo sido subsequentemente transferido para Sete Rios onde permanece até 1930. A partir desse ano a Sociedade Hípica Portuguesa encontra os seus terrenos actuais no Campo Grande, ocupando a localização do antigo Jockey Club. À Sociedade Hípica Portuguesa estão associados todos os que foram nomes grandes do nosso hipismo. Nunca ninguém fez, tantas vezes subir, o pavilhão português no mastro de honra, quer em Portugal quer no estrangeiro, como os sócios do nosso clube. (...) Em 1911 a Sociedade Hípica Portuguesa organiza o III Concurso Hípico Internacional de Lisboa (actualmente designado por CSIO – Concurso de Saltos Internacional Oficial) – as duas primeiras edições foram promovidas pelo Turf Club (1909,1910). O CSIO, tornou-se desde então num imperativo de todas as direcções da SHP, pelo que o CSIO é o concurso mais antigo do mundo que se realiza no mesmo local!» 
In, www.sociedadehipica.pt


(As fotos assinaladas foram encontradas em digitarq.dgarq.gov.pt 
e as outras  são do Arquivo Fotográfico da CML)



Hipódromo do Campo Grande 2012


«Os acessos ao hipódromo são surrealistas. Por vezes terá a sensação de se ter perdido e entrado por uma área de despejos de entulho. Não desespere. Acabará por encontrar o local onde se realizam importantes competições hípicas, cuja construção se iniciou nos anos vinte. Não se esqueça de memorizar o caminho de regresso.»
In, jornalpraceta.no.sapo.pt

Já tinha fechado o post, mas hoje (domingo 21-10) levantei-me cedo e quando passei perto do Hipódromo tentei entrar e entrei. Essa cancela que se vê na foto do google view, é a entrada para os carros e quando apontei o meu carro à cancela ela levantou-se e ninguém me perguntou nada. O meu carro tem 10 anos mas ainda impressiona e é o que deve ter acontecido. Tirei estas 4 fotos.


 A da esquerda é o que resta da Azinhaga dos Ameixiais, ainda com os paralelepípedos e a da direita é a entrada, propriamente dita do hipódromo, está mais ou menos no mesmo local de antigamente. Onde está o carro, era o prolongamento da Azinhaga mas está fechado não percebi com o quê.


 Na da esquerda, onde antes havia uma série de árvores, agora é um pátio enorme para 
estacionamento e na da direita vê-se ao fundo a zona das cavalariças e agora chega de hipódromo!