9 de setembro de 2012

O Lactário da Azinhaga dos Barros

Em redor da Quinta da Calçada



O edifício ainda hoje existe, nem sei se vive lá alguém. Está rodeado de prédios por todos os lados e não é fácil dar com ele. Presumo que ainda pertença à Associação Aboim Ascensão. Durante anos vivi ali a 50 metros e nunca vi qualquer movimento nele, nem ouvi conversas a seu respeito mas, na minha infância O Lactário (como nós chamávamos àquele local) funcionava. Nunca soube o que lá faziam mas, todos os anos havia uma distribuição de roupas, lápis, cadernos, etc e umas botas que nós miúdos odiávamos, eram feias como tudo e apenas boas para jogar à bola porque, quem as tivesse calçadas metia imenso respeito. A Azinhaga dos Barros passava mesmo pela frente do Lactário, naquele tempo (anos 60), havia várias quintas naquela zona, uma era a quinta do Lactário que ficava junto à quinta dos Barros (presumo que o nome é por causa dos barros que "alimentavam", a fábrica de tijolo e que de tanto o tirarem ficou uma lagoa enorme) mas não se sabia onde começava uma e acabava a outra. Outra coisa que me recordo daquela zona é que havia umas figueiras que davam uns figos fabulosos, grandes e doces.

O Lactário ou Refúgio Aboim Ascenção, fica entre a Rua Tomás da 
Fonseca e a Rua António Albino Machado em Lisboa, que era onde eu vivia. 
Foto encontrada em ruinarte.blogspot.pt 


Significado de Lactário no Dicionário

adj. Relativo ao leite.
S.m. Instituição beneficente, em que se aleitam crianças de poucos recursos.


O Lactário, visto da Segunda Circular em 2009, em foto feita com o google view. Clique.



Os Lactários


«Os lactários eram instituições de protecção à primeira infância, onde era dispensado o leite adequado ao bebé. Nos lactários ensinavam a fazer o desmame, a suprir a falta do leite materno e faziam o acompanhamento médico da criança, com a ajuda de assistentes sociais e visitadoras que iam ao domicílio verificar a vida e o desenvolvimento de cada criança. A expressão lactário foi adoptada para traduzir o termo francês creche. O seu principal fim era combater a mortalidade infantil provocada por enterites na primeira infância. O lactário deveria estar junto das maternidades, das creches, dos hospitais, dos dispensários infantis, dos centros de assistência social materno-infantis, de forma a assegurar uma alimentação adequada às mães que amamentavam e à primeira infância. Eram entendidos como escolas de mães ou cantinas maternas.

Texto da foto: Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande - 
Beneficência Aboim Ascensão, 1961 (lactário). 1961. Artur Goulart.

Os lactários em Portugal equivalem às gotas-de-leite francesas. Estas foram concebidas pelo professor francês Pierre Budin, da Faculdade de Medicina de Paris, em 1892. Fundou esse professor no Hospital da Caridade em Paris, uma consulta para recém-nascidos, que funcionava como uma verdadeira escola de mães, que vigiava, dirigia e ajudava as mesmas. Foi o Dr. Dufour de Fécamp que criou, em 1894, as gotas-de-leite. Em Portugal a primeira consulta de crianças foi em 1893, no Dispensário de Alcântara, devendo-se à rainha D. Amélia e ao médico D. António de Lancastre. 

 Prédio do Lactário na Azinhaga dos Barros. 1961. Artur Goulart. 

A consulta era dada pelo Dr. Silva Carvalho. Em 1900 o Dr. Alfredo da Costa nas suas lições na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, propôs a instituição de consultas para recém-nascidos semelhantes às francesas. O primeiro lactário foi criado em 1901, no Largo do Museu da Artilharia, pela Associação Protectora da Primeira Infância criada pelo benfeitor Rodrigo António Aboim de Ascensão. Este lactário tinha uma vacaria em anexo. O coronel Rodrigo Aboim Ascensão foi ajudado pelos sócios e pela própria rainha D. Amélia. De Norte a Sul do país foram fundados lactários por particulares, pelo Estado, pelas Juntas Gerais de Distrito, pelas Juntas de Província, pelas Câmaras Municipais, pelas Misericórdias, por industriais, etc., mas mesmo assim eram insuficientes.» 
(In, revelarlx.cm-lisboa.pt)

Azinhaga dos Barros e prédio do Lactário. 1961. Artur Goulart.

Construção da Segunda Circular; à direita na zona das árvores, passava a Azinhaga dos Barros, vendo-se O Lactário. À esquerda, onde estão as árvores era onde ficava o Bairro da Quinta da Calçada. Ao centro vê-se a chaminé da fábrica de tijolo e o Hospital de Santa Maria ao fundo. 1961. Artur Goulart. 

A foto diz: Entrada para a Beneficência Aboim Ascensão na Azinhaga dos Barros 
mas eu é que não tenho qualquer memória desta entrada. 1961. Artur Goulart.



(Fotos de Artur Goulart e Arquivo Fotográfico da CML)


8 de setembro de 2012

A Azinhaga das Galhardas

e a Fábrica de Tijolo


Em redor da Quinta da Calçada


A Azinhaga das Galhardas e os edifícios principais da Fábrica de Tijolo em 1977.
Aqui já não havia o muro que tapava o Bairro da Quinta da Calçada do mundo.
Foto francisco grave. 


A Azinhaga das Galhardas começava no Largo das Fonsecas e terminava em Telheiras, sendo cortada ao meio pela construção da segunda circular por volta de 1960. O piso era em paralelepípedo e durou dezenas de anos, até por volta de 1977, quando mandaram o muro da direita abaixo e alisaram, alargaram e alcatroaram a Azinhaga. Na foto vê-se os edifícios principais da Fábrica de Tijolo, que terá parado a produção por volta de 1973 (não estou certo da data), e aos poucos começaram a aparecer lá dentro muitas pequenas oficinas, principalmente de automóveis. 1961. Artur Goulart. 

Muro e edificios da Fábrica de Tijolo na Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart. 

Edifício da administração e portão principal da Fábrica de Tijolo. 1961. Artur Goulart.

Inicio da Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart.

Entrada para os camiões da Fábrica de Tijolo na Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart. 

A Fábrica de Tijolo tinha outra entrada na Azinhaga dos Barros, que é esta. 1961. Artur Goulart. 

A Azinhaga das Galhardas entre as duas entradas do Bairro da Quinta da Calçada, que ficava por trás do muro à direita. Atrás da árvore ficava uma lagoa enorme onde antigamente ( presumo que nos anos 20/30), se tiravam os barros para a fábrica, que foi a razão de ela se instalar ali. Pelo menos, em 1908, já estava ali instalada. 1961. Artur Goulart.

A Azinhaga das Galhardas e as antigas entradas para o Bairro da Quinta da Calçada. 
Foto de 2009, feita com o google view.

A Azinhaga das Galhardas depois de passar pelo Bairro da Quinta da Calçada, 
passava aqui em frente à Escola de Telheiras. 1961. Artur Goulart. 

Azinhaga das Galhardas, parte de Telheiras, que foi cortada pela construção da segunda circular. 
Ainda me lembro destas casas, foram todas abaixo poucos anos depois. 1961. Artur Goulart. 

A Azinhaga das Galhardas, naquela casa ao fundo, virava para a direita e logo a seguir para a esquerda e acabava (acho eu) no Largo do "Rabaçal", onde havia um Chafariz (mais antigo que sei lá), daqueles para os cavalos beberem, onde se juntava à Estrada de Telheiras e a outra Azinhaga que ia para o Paço do Lumiar, de que não sei o nome. 1968. João Goulart.

A Azinhaga das Galhardas, naquela casa ao fundo, virava para a direita e logo a seguir para a esquerda e acabava (acho eu) no Largo do "Rabaçal", onde havia um Chafariz (mais antigo que sei lá) e a Taberna e Carvoaria do "Rabaçal", que ficava mais ou menos por trás dessa casa. 1968. João Goulart. 

Mapa topográfico da zona da Quinta da Calçada em 1908. A Fábrica de Tijolo, já existia e havia uma grandes instalações à direita no mapa, onde fizeram mais tarde o Bairro da Quinta da Calçada, que não consegui saber do que eram. Por trás da Igreja do bairro, já dentro dos terrenos do Estádio Universitário, havia muitas pedras de túmulos. Talvez tivessem a ver com essas instalações, que teriam a ver com a CML, que está encarregue dos cemitérios ou seria uma fábrica de mármores, sabe-se lá.


(Fotos e mapa do Arquivo Fotográfico da CML)


As Fonsecas era logo ali ao lado

Em redor da Quinta da Calçada


Fotos do Largo das Fonsecas, Bairro das Fonsecas, 
Quinta das Fonsecas ou só Fonsecas, como também dizíamos.

O Largo das Fonsecas era aqui. Foto de 2009 feita com o google view. 

O Largo das Fonsecas era assim, mas não tenho qualquer memória do edifício grande, as minhas 
irmãs lembram-se bem dele, havia nele uma mercearia ou taberna. 1940. Eduardo Portugal. 

O Largo das Fonsecas em 1967. Subia-se aquelas escadas para ir para o Bairro da Quinta da Calçada, também havia um carreiro logo à direita das escadas, encostado à vedação de arame do Estádio Universitário (a pista de atletismo era logo ali). Havia também por ali, um grande buraco na rede que toda a gente aproveitava para atalhar caminho para o Hospital de Santa Maria. O Edifício que se vê na foto era a escola dos rapazes da Quinta da Calçada e em frente à escola havia o posto da policia (lugar a evitar), que mais tarde foi o espaço do convívio da terceira idade. 1967. João Goulart. 

O Largo das Fonsecas em 1967. A "rua" que se vê na foto chamava-se Azinhaga dos Barros, por causa da zona de barros que havia por ali e da fábrica de tijolo, que ficava à direita, e que se instalou ali, creio que por volta dos anos 20. Nessa fábrica, trabalhou imensas pessoas (sobretudo mulheres) dos dois bairros; Fonsecas e Quinta da Calçada. À esquerda ficava a taberna do Constantino (creio que se chamava assim) e logo a seguir havia uma entra para um pátio e para o Record União Clube. 1967. João Goulart. 

O Largo das Fonsecas em 1967. João Goulart. 

O Largo das Fonsecas, visto da Azinhaga dos Barros. 1961. Artur Goulart. 

O Largo das Fonsecas. 1961. Artur Goulart. 


Circo no Largo das Fonsecas

Estas duas fotos que estão a seguir, não são do Largo das Fonsecas, mas estão aqui por causa dos Circos. Uma das memórias mais antigas que tenho é de ir ao Circo no Largo das Fonsecas. A certa altura fizeram desaparecer o entulho que se vê nalgumas fotos e era aí que se instalava o Circo. Recordo que o Circo era muito pobre (talvez ainda mais pobre do que esses que estão na foto), tinha muitos remendos na lona e até buracos (se calhar foi por aqui que vi o Circo) e recordo que o "grande" número do Circo era um burro que dava coices aos palhaços. Mas a festa era quando chegavam e montavam a tenda e depois quando se iam embora. Estes Circos eram ambulantes andavam de terra em terra tal como os de hoje e segundo sei havia bastantes naquela época. 

Circo Irmãos Gonsalves num terreno junto da avenida de Roma. 1966. Augusto de Jesus Fernandes. 

Circo Torralvo situado entre a avenida Rio de Janeiro e o mercado de Alvalade. 1961. Artur Goulart. 

O Largo das Fonsecas em 1961, com entulho do prédio que havia aqui. Artur Goulart. 

O Largo das Fonsecas em 1968. João Goulart. 

O Largo das Fonsecas em 1967. João Goulart. 

O Largo das Fonsecas, taberna do Constantino? em 1967. João Goulart. 

Mural alusivo ao 25 de Abril no Largo das Fonsecas, certamente 
pintado pelas crianças da Quinta das Fonsecas. 1978. Águas Neves. 

Bairro da Quinta das Fonsecas - Comissão de moradores, pavilhão de apoio local. 1977. Estas fotos 
do pavilhão da Quinta das Fonsecas podem muito bem ser de Carlos Gil, que andou por ali nessa época. 


Teatro nas Fonsecas

Noticia encontrada no jornal página um de 17 Janeiro de 1977, onde se fala do grupo de teatro da Quinta das Fonsecas, que existiu entre 1976/77 (?) e que se chamava "O Arauto das Fonsecas". É pena mas não tenho qualquer memória disto. Todas estas coisas que se fizeram na Quinta das Fonsecas e na Quinta da Calçada, tinham a ver com os tempos que se viviam, todos queríamos fazer algo, participar de alguma maneira e isso foi das coisas mais lindas que aconteceram logo após o 25 de Abril. Uns faziam actividades culturais, outros participavam nas formações das comissões de moradores e mais tarde das cooperativas, outros trabalhavam com as crianças e foi graças ao trabalho dessas pessoas todas que deixámos de morar em barracas e construimos um novo bairro. No fundo fizemos o mesmo que milhares de pessoas fizeram por esse país fora, lutámos por um futuro melhor. Embora passemos tempos difíceis, convém não esquecermos que difíceis mesmo eram os tempos da nossa infância e adolescência, em que não tínhamos dinheiro nem para mandar cantar um cego, como era costume dizer. 

Bairro da Quinta das Fonsecas. Interior do pavilhão de apoio local. 1976/77. Carlos Gil. 

Bairro da Quinta das Fonsecas. Comissão de moradores, pavilhão de apoio local. 1977. Estas fotos 
do pavilhão da Quinta das Fonsecas podem muito bem ser de Carlos Gil, que andou por ali nessa época. 

O Chafariz do Bairro da Quinta das Fonsecas. Ao fundo o Hotel Penta. 1976/77. Carlos Gil. 

 Bairro da Quinta das Fonsecas. Comissão de moradores, pavilhão de apoio local. 1977. Estas fotos 
do pavilhão da Quinta das Fonsecas podem muito bem ser de Carlos Gil, que andou por ali nessa época. 

 Bairro da Quinta das Fonsecas. Comissão de moradores, pavilhão de apoio local. 1977. Estas fotos 
do pavilhão da Quinta das Fonsecas podem muito bem ser de Carlos Gil, que andou por ali nessa época. 

Bairro da Quinta das Fonsecas. Comissão de moradores, pavilhão de apoio local. 1977. Estas fotos do pavilhão da Quinta das Fonsecas podem muito bem ser de Carlos Gil, que andou por ali nessa época. Nesta foto vê-se à esquerda o grande Machado ou melhor António Albino Machado. 



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)


O Bairro das Minhocas ou da Bélgica

O Bairro das Minhocas ou Bélgica em 1938. Eduardo Portugal. 


Bairro das Minhocas ou do Bélgica (ou mesmo dois bairros), ficava junto à Estação do Rego. Pelos anos 30, segundo me contaram, foi destruído por um grande incêndio, talvez em 1936 ou 1937, o que "obrigou" as autoridades da altura a apressarem a construção do Bairro da Quinta da Calçada, do Bairro da Boavista, do Bairro das Furnas tudo no fim dos anos 30 e inicio dos anos 40 e mais tarde o Bairro Padre Cruz, tudo em lusalite. A maioria das pessoas que vieram habitar o Bairro da Quinta da Calçada, vieram deste bairro, não foi o caso dos meus pais, que vieram do Bairro da Feiteira ao Pote D'Água.


Relatório (excerto) do Presidente da CML, Eng. Eduardo Rodrigues de Carvalho, referente ao ano de 1938, com referências ao Bairro das Minhocas e ao Bairro da Quinta da Calçada. Copiado de uma revista da CML.

Relatório (excerto) de 1940, do Comandante da Policia Municipal, Major Brito Galhardo, com referências aos anos anteriores e aos Bairro das Minhocas ou da Bélgica e ao Bairro da Quinta da Calçada. Copiado de uma revista da CML.



Chegarão 100 anos para acabar com as barracas? 

por

Nuno Teotónio Pereira  



Pelos fins do século passado começaram a ouvir-se vozes contra as condições degradantes de habitação, principalmente nos grandes centros. Políticos como Augusto Fuschini e higienistas como Ricardo Jorge denunciavam no Parlamento e na Imprensa as miseráveis condições de habitação em Lisboa e no Porto. Com o processo de industrialização destas duas cidades ao longo da segunda metade do século, as vagas de imigrantes rurais tinham engrossado a população citadina e o mercado de arrendamento convencional não podia satisfazer essa procura. Os bairros populares, como Alfama e o Barredo, ficaram sobrepovoados e os novos habitantes encontraram alojamento em condições improvisadas, corno os pátios lisboetas, conventos desafetados e palácios arruinados. Em breve, mercê de construtores oportunistas, foi surgindo um novo mercado de arrendamento, constituído por módulos de habitação precários e de dimensões ínfimas, sem as mínimas condições de higiene, ocupando terrenos sobrantes no interior de quarteirões. Foram as ilhas do Porto e os pátios e depois as vilas em Lisboa. Era esta a situação denunciada, clamando-se pela intervenção dos poderes públicos, em nome da higiene e da moral.

"Aspecto do Bairro das Minhocas, que a Câmara Municipal de Lisboa vai demolir. 02-08-1938". 
Foto encontrada em digitarq.dgarq.gov.pt. 

Nessa época não haveria ainda barracas, senão talvez como construções esparsas, não constituindo aquilo a que veio chamar-se os bairros de lata. Estes terão começado a surgir nos primeiros anos do século atual, principalmente na periferia de Lisboa. Mas o Estado, às costas com défices crónicos do orçamento, demorava a intervir. Enquanto a situação se ia agravando, algumas iniciativas isoladas de caráter filantrópico eram lançadas nas duas cidades; Francisco Grandella e o banqueiro Cândido Sotto Mayor em Lisboa e o jornalista Bento Carqueja no Porto são alguns dos seus protagonistas. 
Foi preciso esperar até 1918, quando no consulado de Sidónio Pais surgiram as primeiras medidas de proteção estatal à construção de habitações económicas. E logo no ano seguinte são lançados os primeiros "Bairros Sociais", em Lisboa, no Arco do Cego e na Ajuda, que levaram no entanto mais de uma década a ficar concluídos.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Com o advento do Estado Novo estas preocupações conhecem um novo impulso: em 1933 é criado o regime das "Casas Económicas", de propriedade resolúvel, corporizando as ideias de Salazar quanto à família: casa própria, modesta e bem portuguesa — em conjuntos que pretendiam reproduzir a estrutura das aldeias, incrustados na cidade. 
Em 1938, pela mão de Duarte Pacheco, é assumido diretamente o combate aos bairros de lata na capital, através do regime das "Casas Desmontáveis", feitas de chapas de fibro-cimento e para durarem 10 anos como alojamento temporário. Embora muitas tenham sido já substituídas, alguns núcleos ainda persistem passado meio século, nos bairros da Boavista e da Quinta da Calçada. Foi dessa maneira que se fez desaparecer o célebre Bairro das Minhocas, localizado perto do Rego. Acreditou-se então que o fenómeno das barracas era controlável a prazo, quando na verdade estava para lavar e durar. 
Em 1945 são criadas as "Casas para Famílias Pobres", já que os habitantes das barracas não podiam aceder às "Casas Económicas". E outras iniciativas surgem na década de 40, não já com o objetivo de eliminar as barracas, mas de acudir a outros estratos sociais um pouco por todo o País, já que o problema da habitação se agravava: "Casas de Renda Económica", "Casas de Renda Limitada", "Casas para Pescadores". Tiveram especial importância neste período as Caixas de Previdência, no tempo em que as prestações pagas por trabalhadores e empresas ainda se capitalizavam e investiam a um juro de 7% ao ano.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Entretanto é preciso esperar por 1956 para ver surgir uma ação de combate às ilhas do Porto: um programa de construção de 6.000 habitações em 10 anos, destinado aos moradores dessas ilhas. Lá estão numerosos bairros municipais, mas as ilhas continuaram a existir na cidade. Entretanto, em Lisboa novos bairros de lata iam aparecendo, espalhando-se pelos concelhos limítrofes. 
É então (1959), por decreto do Ministério da Presidência, ocupado por Pedro Teotónio Pereira, que é criado um Gabinete Técnico de Habitação na CML e se lança um programa específico de habitação social em termos integrados, de que resultaram os bairros de Olivais Norte e Sul, e depois Cheias, este ainda em desenvolvimento. Os dois bairros dos Olivais ficam na história de Lisboa como realizações positivas em termos de planeamento urbano, de prazos de execução, de integração de diferentes classes sociais, de intervenção de diversas entidades promotoras, de construção de equipamentos e de arranjo dos espaços livres. É nestes bairros, e no do Viso, no Porto, que o regime se vê obrigado a abrir mão do ideal da casa unifamiliar para o regime de "Casas Económicas".

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Mas o fenómeno já era alarmante. Em 1963 o Diário Popular realizou um inquérito exaustivo ao problema da habitação, cujas conclusões foram organizadas em 19 artigos a publicar no jornal, e que foi realizado por uma equipa de reportagem composta por Urbano Carrasco, Mário Henriques, Corregedor da Fonseca e Nuno Rocha. O primeiro artigo ainda chegou a ser publicado. No respetivo título dizia-se que o número de barracas em todo o País passara de 10 mil em 1959 para 50 mil em 63. Os restantes dezoito artigos, foram todos cortados pela censura. Tenho na minha biblioteca um volume encadernado contendo as respetivas provas tipográficas que me foi oferecido por alguém de confiança no jornal. É um documento impressionante de como nesses tempos eram ocultadas aos portugueses as realidades do próprio país. 
E no entanto a década de 60 viu ocorrer dois importantes fenómenos que atuaram como válvulas de escape na multiplicação das barracas: uma emigração massiva para a Europa, que absorveu fluxos populacionais habitualmente dirigidos para as duas áreas metropolitanas e, sobretudo na região de Lisboa, a proliferação dos chamados bairros clandestinos, que fizeram desviar dos bairros de lata muitos dos que tinham alguma possibilidade de investimento. Em 1964 é pela primeira vez contemplada a habitação nos Planos de Fomento.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Durante o marcelismo, em que foram centralizadas todas as atividades do setor no Fundo de Fomento da Habitação, foram lançados os chamados "Planos Integrados" (Lisboa, Almada, Setúbal, Aveiro), com o objetivo de estender o exemplo dos Olivais, mas pouco se avançou. Um Colóquio sobre a Habitação e outro sobre o Urbanismo (1969) permitiram no entanto o arejamento dos diferentes problemas em aberto, até então demasiado circunscritos aos gabinetes ministeriais. Mas a Censura, agora denominada Exame Prévio, continuava a impedir que muito dos aspetos sociais desta questão pudessem ser discutidos publicamente. 
Veio o 25 de Abril e um processo que hoje podemos classificar de histórico veio ao cima, com um dinamismo tal que se tornou possível uma vez mais prever o desaparecimento das barracas e das ilhas: o SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local, criado por Nuno Portas, Secretário do Estado da Habitação dos primeiros governos provisórios.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Organizados os habitantes dos bairros degradados em Comissões de Moradores, estas desencadearam um processo de reivindicação de Norte a Sul do País sob a égide da palavra de ordem "Casas Sim, Barracas Não". Com o apoio estatal organizaram-se muitas dezenas de equipas técnicas pluridisciplinares, englobando desde arquitetos e engenheiros a sociólogos, economistas, geógrafos e trabalhadores sociais, que se encarregaram dos projetos, entretanto discutidos em assembleias gerais de moradores. As Câmaras Municipais, através de processos expeditos, iam disponibilizando os terrenos necessários. Muitos destes projetos iniciaram a construção, embora a grande maioria não tivesse tido tempo de atingir essa fase. É que em 1976 o sistema foi repentinamente suspenso por decisão governamental, sendo ministro da Habitação Eduardo Pereira, no quadro da chamada normalização democrática: o SAAL foi considerado excessivamente revolucionário face ao sistema representativo, por se encontrarem no seu alicerce formas de democracia direta. 
Atribuídas as competências do SAAL às Câmaras, sem qualquer apoio da Administração Central, alguns bairros puderam ainda ser continuados e certos terrenos aproveitados, mas o sistema tinha sido destruído. Foi o fim de um sonho de poder acabar com as barracas e com as ilhas. Assinados muitos dos projetos por alguns dos mais conceituados arquitetos portugueses, ficaram certas realizações como testemunho do muito que se poderia ter feito e de uma forma política, social e tecnicamente inovadora para um problema que se arrastava há décadas.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Eram entretanto relançados os Planos Integra­dos, mas o Fundo de Fomento da Habitação, que os geria, acabou também por ser dissolvido, remetendo-se essencialmente para os mecanismos do mercado, com umas magras bonificações de juros, a resolução do problema habitacional. O Instituto Nacional de Habitação e o IGAPHE, entretanto criados, financiam algumas realizações municipais e cooperativas, mas o problema continua sem solução à vista. 
Passadas duas décadas, o nível de vida das populações subiu, o parque automóvel cresceu, mas nem por isso as barracas e as ilhas viram reduzido o seu número. As que são eliminadas no decurso de programas de habitação social são muitas vezes substituídas por outras. Essas formas infra-humanas de habitação mostram assim constituir um problema estrutural da sociedade portuguesa. Ao longo dos últimos anos, a capacidade de realização de alguns municípios tem desenvolvido programas de habitação com a finalidade de acabar com o flagelo, mas a situação não dá mostras de melhorar, agravado o fenómeno com a vaga de imigração oriunda dos PALOP. Permanece como questão de fundo a enorme distância entre os valores pedidos pelo mercado e as possibilidades económicas de um vasto setor da população.

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 

Como há 100 anos, torna-se evidente que só com uma forte intervenção da Administração Central será possível proporcionar habitações decentes às populações que delas necessitam. Foi isso que o Governo finalmente reconheceu ao lançar as medidas que vieram recentemente a público. Resta saber se será desta vez que as barracas vão acabar. E isto sem esquecer que o problema da habitação não se esgota nas barracas. Longe disso. 

Texto de Nuno Teotónio Pereira
In Público, 23.9.93
encontrado em www.snpcultura.org

Bairro das Minhocas ao Rego. 1938/39. Eduardo Portugal. 



(Fotos Eduardo Portugal e Arquivo Fotográfico da CML)