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3 de fevereiro de 2013

O Franco no Campo Grande



O nome era Ferraria Franco-Portuguesa e ficava no Campo Grande, mas era mais conhecida como Serralharia Franco ou O Franco. Acreditem ou não trabalhei lá com cerca de 11/12 anos, durante um ano e meio mais coisa menos coisa, e antes disso já tinha trabalhado numa farmácia, uns meses quando saí da escola aos dez anos, e de onde fui despedido por comer as pastilhas Rennie e numa fábrica no Bairro de Alvalade (também uns meses) que fazia, que eu me lembre, entre outras coisas, os botões (vermelhos para o autocarro parar) de plástico para os autocarros de dois pisos da Carris e isto sem contar o tempo entre os 8 e os 10 anos que apanhava bola de ténis no CIF, nas horas em que não havia escola.



Na foto (dos anos 60) está o meu cunhado Carlos (ainda novo mas já casado com a minha irmã Emília , nos seus tempos de soldador na Ferraria Franco (há data soldador era um trabalho especializado) e um anuncio da Ferraria Franco encontrado numa revista da CML, não sei de que data, mas talvez dos anos 40 ou 50. (foto de Emília Grave)

Lembro-me que foi o meu cunhado Carlos que me arranjou este emprego, ele trabalhava lá como soldador e trabalhava lá mais gente da Quinta da Calçada e de Telheiras. Os putos como eu trabalhavam como o caraças, tenho algumas memórias de ir buscar ferro com 6 metros á zona do Arco-Cego e vir a pé até ao Campo Grande. Os mais velhos nem sempre nos tratavam muito bem, os putos eram explorados tanto pelos patrões, (creio que ganhava 13 escudos á quinzena) como pelos mais velhos, (os mais antigos eram tratados por Mestre e os outros por Senhor) fazíamos recados, aquecíamos a comida deles, fazíamos braseiras no inverno, ajudava-mos em tudo e mais alguma coisa, ainda lembro a sensação que entrava nas unhas quando tínhamos de pegar no ferro logo de manhã (entrávamos ás 8h). Tenho também ainda na memória, um choque eléctrico que apanhei e que fiquei com a ideia de que até voei.  


Na foto da esquerda, ao fundo vê-se o portão de entrada e saída de materiais com o guindaste para as
 coisas pesadas. Na outra foto vê-se alguns dos barracões que faziam parte da Serralharia Franco. 1962.

Aquilo que me dava mais gozo fazer, era duas ou três vezes por ano ir á rua de São Nicolau na Baixa, a uma Farmácia, buscar os remédios para a serralharia (álcool, algodão, iodo, ligaduras, etc), ás vezes levava mais de meio dia a fazer isso e depois tinha que aturar o encarregado, já que ia a pé uma parte do caminho, o que me permitia poupar dinheiro que eles davam para o eléctrico ou autocarro e comprar umas revistas (Mundo de Aventuras, O Condor, o Falcão e outras) e ver os cartazes dos filmes dos vários cinemas da baixa, e olhar para tudo e mais alguma coisa porque para mim a Baixa era outro mundo. Aos sábados trabalhávamos até ás 13h e era dia de limpeza da oficina e quem a fazia eramos nós, os aprendizes, e tínhamos que nos despachar senão ficávamos lá depois da hora. Já não me recordo de como saí de lá, se fui despedido ou não porque (isso naquela altura era o pão nosso de cada dia), estávamos sempre a saltar de um trabalho para outro. Só sei é que aos 13 anos já trabalhava na Rua da Prata numa loja de tecidos, mas isso agora não interessa nada.

Pelo lado esquerdo desta taberna ou casa de pasto, ia-se para O Franco e pela direita para 
Pátio do Galego (creio que se chamava assim). Esta casa ainda existe actualmente. 1961.

Na foto da esquerda, vê-se ainda parte da antiga Serralharia Franco, zona da Quinagem. 
Na outra foto, a entrada para a Serralharia Franco com o Chafariz em primeiro plano. 2011.

A Serralharia Franco fazia todo o tipo de trabalhos em ferro, tanto simples, como os mais elaborados. Este exemplo de um portão da Avenida da Liberdade, 191, serve para ilustrar o que disse. Lembro-me que este portão foi feito na Serralharia Franco entre 1965/66, porque fui um dos aprendizes que foram ajudar (ajudar é como quem diz; passava-lhes as ferramentas, etc) os oficiais a montar o portão. Fotos feitas com o Google Maps. 2011.

Chafariz do Campo Grande em frente á Serralharia Franco. 1961. Artur Goulart.


(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)


19 de novembro de 2012

BAIRRO SOCIAL por António Gamito


Já tinha publicado este texto em citizengrave. Encontrei-o há cerca de dois anos, quando fiz uma busca na net para ver o que havia sobre o Bairro da Quinta da Calçada e descobri uma página de nome Lírio do Campo de António Gamito alojado na comunidade.sol.pt, onde com o título BAIRRO SOCIAL, havia uma crónica sobre a Quinta da Calçada com a data de 01 de Fevereiro de 2009. Embora não mencionasse o nome do bairro, pela descrição só podia ser o Bairro da Quinta da Calçada. Procurei no blog do Sr. Gamito mais algumas informações e só descobri que nasceu em 1943, portanto tem mais 11 anos do que eu, que nasci em 1954 e somos do signo balança, o que é bom. Resolvi agora, voltar a publicar mas, no blog da Quinta da Calçada que é onde ele pertence por direito. Coloquei fotos (referentes ao que ele nos conta) porque tem graça e faz bem à alma (que vejo cada dia mais minguada) e por fim só me resta agradecer ao Sr. António Gamito. Obrigado.


Bairro da Quinta da Calçada em construção. Foto copiada da revista Ilustração. 1938.


«No rescaldo amargo da segunda grande guerra mundial, o meu Pai resolveu abandonar a quinta e a casa dos meus Avós, a meio-caminho entre Santiago e Sines, e rumar, com a Mulher e dois Filhos (o meu irmão e eu), em direcção a Lisboa: não sei se procedeu bem ou se procedeu mal, mas eu, então com quatro anos de idade, tive uma pena enorme de deixar os meus Avós e a Casinha que, dentro da quinta, nós ocupávamos. Andámos em bolandas várias pelo Pote de Água e fomos, passados uns tempos, “aterrar” num bairro social, implantado então nos terrenos onde hoje se situam o Hospital de Santa Maria e o Estádio Universitário.


Barracas da Feiteira ao Pote D'Água. Não consegui saber nada sobre este bairro de barracas, até porque existem mais locais com o nome de Feiteira em Lisboa. Mas, eu sei que existiu porque os meus pais quando vieram de Pias no Ribatejo, foram para aqui morar (isto nos anos 30), antes de irem para a Quinta da Calçada. 1940. Eduardo Portugal.

Moradores da Feiteira ao Pote D'Água. Foto sem data. Esta foto pertencia a minha mãe. mas nem eu, nem os meus irmãos sabemos a que diz respeito. Talvez alguma pessoa da família ou a partida para a Quinta da Calçada. (foto de francisco grave)

Tratava-se de um “bairro” sossegado e calmo, ocupado por gente trabalhadora, a maioria expropriada pelas obras públicas do Estado Novo. As pessoas eram “vigiadas”, nos seus comportamentos, pelo Fiscal do Bairro e pelo seu Ajudante, ambos polícias reformados; no interior do Bairro, existia uma esquadra da PSP, com o respectivo comandante e vários guardas permanentes, que, dia e noite, velavam pela tranquilidade pública e privada.

Esquadra da Policia, vista da escola dos rapazes. 1939. Eduardo Portugal.

Existia um infantário, onde as Mães deixavam os seus bébés, “de borla”; existia um posto médico, com médico e enfermeiras permanentes, com consultas e tratamentos gratuitos; existiam várias “assistentes sociais” para auxílio material e moral aos mais necessitados; existia a “praça”, um edifício relativamente grande, com várias bancadas de frutas e legumes, talho, peixaria e mercearia, no qual, ao menos uma vez por ano, se organizavam, com os “talentos” do bairro, peças de teatro; existia o “lava-roupa” público, com dezenas de tanques de lusalite, e o respectivo estendal, onde se punha a roupa a secar e a “corar”. Por isso, era proibido estender a roupa nos quintais e também era vedado ter animais nos mesmos quintais.

A Praça (Mercado) da Quinta da Calçada. 1940. Eduardo Portugal.

Existiam também duas escolas primárias, a masculina para os rapazes e a feminina para as raparigas, colocadas ambas estrategicamente, uma na estrema norte e outra na estrema sul do bairro. As escolas tinham ambas cantinas, onde todos os dias era servida a sopa (“a sopa do barroso”), precedida de uma fétida colher de óleo de fígado de bacalhau, que a “miudagem” engolia com notório contragosto, acompanhada de imediato com um ou dois gomos de laranja, para assim controlar o vómito. As professoras, em regra muito dedicadas, acompanhavam os alunos desde a primeira até à quarta classe; de tempos a temos, as salas de aula eram abruptamente invadidas por pessoal de enfermagem que, ali mesmo, aplicava aos “gaiatos” as vacinas “da ordem”, de que não era possível fugir.

Bairro da Quinta da Calçada: Centro Social, Igreja e Infantário. 1940. Eduardo Portugal.

O capelão – frades franciscanos – e as catequistas – senhoras “da alta” que voluntariamente a isso se dispunham – davam as aulas de catequese a todos os alunos: por isso, aí fiz a primeira comunhão, o crisma e a comunhão solene, tudo solenidades acompanhadas de opíparos lanches. As casas, construídas de lusalite, tinham, todas elas, um pequeno quintal na frente, que o meu Pai se esmerava em cuidar: nele semeava as “ervinhas” alentejanas, o tomate, o feijão, o alface, o pepino, por entre ervilhas-de-cheiro, cravos e rosas. A electricidade era “de borla”, mas só funcionava até às 10 da noite; depois disso, acendia-se o candeeiro a petróleo (quantas vezes não fui eu chamado a limpar, com pedaços de folha de jornal, as enegrecidas “chaminés” de vidro...). A água também era “de borla” e podia-se usar “à discrição”, até para regar as plantas do quintal. Os jardins públicos eram esmeradamente tratados pelos jardineiros contratados pela Câmara e mantinham-se impecáveis durante todo o ano: Ai do miúdo que pisasse a relva, cortasse as flores ou destruísse as sebes vivas!

Alameda que vinha desde o mercado até à esquadra. 1940. Eduardo Portugal.

As rendas eram baixas, mas ai de quem as não pagasse!... Era despejado de imediato, sem apelo nem agravo. As pessoas eram pobres, mas educadas e brandas: Se alguém tivesse o descaramento de “violar as regras” era automaticamente “deportado” para um dos bairros da periferia, nomeadamente para o da Boavista. Mas, enquanto lá vivi, não tive notícia de qualquer “deportação”. Lembro-me da minha vizinha Guida: era uma jovem corporalmente muito bem dotada, que todos os dias abalava de casa, pela tardinha, bem vestida e muito perfumada, para o seu “trabalho” – todo o mundo sabia a “profissão” dela, mas toda a gente a tratava com o maior dos respeitos. Ao fim-de-semana, o jornaleiro circulava pelas ruas, logo pela manhã, gritando, alto e bom som: “Traz o crime! Traz o crime!”. Quem sabia ler corria a comprar o Diário de Notícias, que naquela altura custava dois tostões.

O Petrolino, aqui até já vendia bilhas de gás. 1976 (foto de francisco grave)

Todos os dias o bairro era visitado pelo “pitrolino” que, no dorso da sua mula, trazia e vendia o petróleo, o azeite, o vinagre, o sabão, as escovas, os piassabas, os tachos e as panelas de alumínio. Ao domingo de manhã, era a vez da “contrabandista” bater de porta em porta: era ela quem vendia, a prestações, os lençóis e as mantas, os cortinados e as camisas, os quadros do Coração de Jesus, da Senhora de Fátima e do Menino Jesus de Pádua  os rádios portáteis e os relógios de corda, entre outras coisas. Entregava e recebia: o meu Pai ia-lhe pagando as “compras” em prestações semanais de dez escudos, que ela escrupulosa e pontualmente registava no seu “rol”. O meu Pai – ávido devorador de letras -, além de comprar regularmente o jornal diário, assinava os romances, que, naquele tempo, eram vendidos aos “pedacinhos” – um cadernito em cada semana – e mais tarde encadernados. Nos intervalos da escola e dos folguedos, eu também lia o jornal e os “folhetos” dos romances caseiros. Mas o bairro também tinha, no “centro social”, uma pequena biblioteca, que emprestava os livros a quem o pedisse: Eu fui pedindo e fui lendo (Júlio Verne e outros) até que um dia a assistente social se virou para mim e me disse: “António, já não te empresto mais livro nenhum. Tu já os leste todos”. Virei-me para a “carrinha” da Gulbenkian que todas as semanas parava à minha porta e, destarte, não interrompi as minhas leituras. Talvez por isso, na escola primária era o único aluno que, nos ditados, dava sempre “zero erro”: toda a gente dizia que, da primeira à quarta classe, fui sempre o melhor aluno da escola.

Carrinha/Biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian. 1964. Garcia Nunes.

Os guardas da PSP, os fiscais do bairro, os jardineiros, as assistentes sociais, as professoras, as catequistas – nunca me maltrataram, nem por actos, nem por palavras, nem por gestos, nem por atitudes. Não havia droga, nem criminalidade, nem faltas de respeito: por tudo isso, garanto que, embora não tendo fartura de bens materiais, fui, naquele bairro, uma criança muito, mas mesmo muito, feliz. Ademais, nas áreas públicas e fora do período das aulas, ninguém nos impedia de brincar com as meninas. Oh! Quantas saudáveis brincadeiras eu mantive com uma gentil menina mais ou menos da minha idade que morava na casa em frente da minha: em regra, eu era – claro! – o médico, e ela era – claro! – a enfermeira. E, naqueles tempos, os médicos, quanto a nós, davam muitos beijinhos nas enfermeiras, e vice-versa...

Agora, com todas estas alterações, já não sei...

Só sei que as minhas netinhas, de cinco e de três anos respectivamente, me confidenciam, de vez em quando, que dão beijinhos nos seus namorados:

- Vôvô, hoje dei um beijinho ao Tiago, diz-me uma, em segredo.

- Vôvô, e eu hoje também dei um beijinho ao Tomás, diz-me a outra, também em segredo.

- É um segredo, vôvô!

- Pois claro, é um segredo, o vôvô não conta a ninguém.

Afinal, as “coisas” não mudaram tanto como por vezes por aí se diz.

Só é pena, muita pena, que os “bairros sociais” de hoje nada tenham a ver com os da minha meninice. E com um bocadinho de esforço as “coisas” podiam mudar muito e muito depressa. O que falta é as pessoas aprenderem, de novo, a ser FELIZES.»

António Gamito em Lírio do Campo


 Propaganda da CML da altura, copiada de uma revista municipal de 1940.

 Propaganda da CML da altura, copiada de uma revista municipal de 1940.

Vista aérea copiada de uma revista municipal de 1940.



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)




23 de setembro de 2012

A Escola de Telheiras

Onde fiz a Instrução Primária


A antiga Escola de Telheiras. Actualmente creio que é uma das casas de apoio aos doentes com sida. 
Ainda bem que serve para alguma coisa decente. 2009. Foto feita com o Google view. 


Em Redor da Quinta da Calçada


A memória mais antiga que tenho da escola de Telheiras, onde fiz a instrução primária, é de no primeiro dia? de escola, ser o dia de levar vacinas e de estarmos em fila e aterrorizados. A certa altura alguns dos miúdos mais velhos saltaram pela janela para não levarem as vacinas, as salas de aula eram no primeiro andar (pelo menos a minha) e sempre são uns três metros até ao chão. No meu tempo a escola só tinha uma porta ao meio, a outra foi acrescentada mais tarde. Entrava-se e havia umas salas à direita e à esquerda e umas escadas para o primeiro andar, onde havia um corredor grande e mais duas salas. Não sei porque fui para aquela escola, já que o meu bairro tinha duas escolas; de rapazes e de raparigas. Creio que deve ter sido porque, ou estavam cheias ou porque eu tinha seis anos e naquele tempo só se entrava com os sete anos já feitos.


A antiga Escola de Telheiras em 2010?, vista de um dos prédios que 
ficam junto à Azinhaga da Galhardas. Foto encontrada em panoramio.com. 


O que é certo é que entrei ainda com seis anos e fiz os sete a 24 de Setembro. Naquele tempo as escolas começavam nos inícios de Setembro. A escola correu-me bem, entrei aos seis e saí aos dez anos, recordo que tinha facilidade em aprender e um grande jeito para o desenho, dos professores e dos auxiliares, tenho algumas memórias mas que não chegam para me lembrar dos nomes, mas não tenho razões de queixa, por aí além. Creio que tive sempre professoras e só no último ano tive um professor. Houve uma professora que era um bocado mais ousada e trazia umas saias "curtas" e recordo que cruzava as pernas, o que possibilitava umas "visões místicas e vibrações cósmicas", a mim, ao Luis Pintor e ao Matateu, que era com quem eu me dava mais naqueles tempos. Um dia, arranjei uma régua não sei onde e resolvi oferecer a esta professora e para desgraça minha, fui o primeiro a levar com ela. As ponteiradas no cimo da cabeça, de que eu ouvia falar que davam noutras escolas ali era raro, mas lembro que de vez em quando (quando o caso tinha sido "grave"), éramos postos em fila e todos levavam reguadas. 


Foto do final do ano lectivo da Escola de Telheiras, eu estou de camisola branca ao pé do professor, de braços cruzados e de cabelo louro, ao meu lado direito está o Matateu (que já não vejo à mais de trinta anos e no meu lado esquerdo está outro puto da fábrica, que não recordo o nome mas acho, que era ou família do Matateu ou vivia perto dele. Aí na foto também deve estar o Luis Pintor, não sei se será o primeiro do lado direito sentado no chão. Recordo muitas destas caras mas os nomes zero. Os putos que estão na parte de cima estão em cima de um muro de um tanque de agua, que estava sempre cheio, mas não faço ideia para o que servia. Não deve haver na foto muitas mais crianças da Quinta da Calçada porque só iam para a Escola de Telheiras os que não tivessem lugar nas do bairro. A foto tem alguns problemas ao nível dos olhos porque alguém (se calhar eu, ou um dos meus sobrinhos) dedicou-se a riscá-los. Foto Francisco Grave.

O "Matateu", eu e outro puto de que não recordo o nome.

Uma das coisas que nunca compreendi é porque os exames da quarta classe eram feitos no Lumiar, quando todos os outros foram feitos na Escola de Telheiras. No Edifício da Escola de Telheiras, que devia ser uma antiga casa principal de uma quinta e que terá agora uns cem anos ou mais, vivia lá uma senhora que ou era a guarda ou governanta da casa, o que sei é que era ela que cuidava da limpeza da escola. Era conhecida por a Maria dos Porcos, porque tinha um trabalho de cuidar de porcos ali perto na chamada Quinta da Câmara (hoje, terrenos do Estádio Universitário). Mais tarde, fazia negocio a vender gelo, recordo ir lá comprar gelo já na minha adolescência, quando chegava o verão e queríamos refrescar as bebidas, porque naquela altura era rara a família que tinha frigorífico no Bairro da Quinta da Calçada. Quando terminei a instrução primária, os meus pais perguntaram-me se eu queria ir para o liceu, que eles fariam um esforço, para que eu continuasse a estudar, mas eu estupidamente disse que queria ir trabalhar e só vinte e tal anos depois é que fui estudar outra vez.


Foto de uma festa na Escola Alemã em 1970. Do outro lado da Segunda Circular (que é o que nos interessa), vê-se algumas casas da Quinta da Calçada, o Mercado e os Tanques. Os terrenos à direita eram as hortas que iam até à Escola de Telheiras e os terrenos ao centro era a chamada Quinta da Câmara, que ia até ao hipódromo e ao canil. 1970. Nuno Barros Roque da Silveira.

A Escola de Telheiras em 1962, no tempo em que eu andava nela e aprendia coisas, umas que serviram mais tarde, outras não. Esta foto é das traseiras, onde está a varanda, as escadas e a parte de baixo, mais a zona da árvore, era tudo território da chamada Maria dos Porcos. 1962. Artur Goulart.

A antiga Escola de Telheiras em 2010?, vista de um dos prédios que 
ficam junto à Azinhaga da Galhardas. Foto encontrada em nezclinas.blogspot.

Fachada da Escola de Telheiras. 1968. João Goulart.

Azinhaga das Galhardas com a Escola de Telheiras ao fundo. 1940. Eduardo Portugal.

Azinhaga das Galhardas com a Escola de Telheiras ao fundo, tirada mais ou menos da mesma zona que 
a foto anterior. Há 70 anos de diferença entre as duas. 2010?. Foto encontrada em nezclinas.blogspot.

A Segunda Circular acabadinha de alcatroar, com a Escola de Telheiras ao fundo. Por 
trás das árvores à direita ficava o Bairro da Quinta da Calçada. 1962. Artur Goulart.

A Segunda Circular em obras, com a Escola de Telheiras ao fundo. Por trás 
das árvores à direita ficava o bairro da Quinta da Calçada. 1961. Artur Goulart. 

Da porta da Escola de Telheiras, olhando para Telheiras era isto que se via, no tempo em que eu 
andava na escola. A moradias à direita são do Bairro Jardim de Telheiras. 1961. Artur Goulart. 

Zona perto da Escola de Telheiras onde nos recreios costumava-mos brincar. A rua 
é a Azinhaga das Galhardas que ia até ao pé do "Rabaçal". 1961. Artur Goulart.


Aqui foi onde fiz o exame da quarta classe. Tenho uma vaga memória de ter feito o exame; prova oral e escrita, de ter esperado um bocado a ver se tinha passado, de me darem uns papeis e de ter voltado a pé para o nosso bairro e de a certa altura ter dado por me terem caído um ou dois papeis, voltei para trás e encontrei-os perto da zona da Tobis (há dias de sorte). Este edifício fica na Alameda da Linhas de Torres e pertenceu à Sociedade Instrução e Beneficência José Estêvão fundada em 1911, creio que era um antigo Centro Escolar Republicano, que o Estado Novo aproveitou. Está há anos abandonado e espero que não o mandem abaixo, é um edifício de interesse histórico, creio eu que, não percebo nada disso. Foto a preto e branco: 1966. Artur Goulart. Foto a cores: 2009, feita com o Google view.



EVOLUÇÃO E SITUAÇÃO ACTUAL DOS
CENTROS ESCOLARES REPUBLICANOS


«Os Centros Escolares Republicanos fazem parte da riquíssima história do associativismo, tão vigoroso na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Fenómeno também europeu o associativismo oitocentista visava responder aos problemas e solicitações sociais decorrentes de transformações muito importantes, então vividas tanto na sociedade portuguesa como nas demais sociedades dos países ocidentais.
Entre essas transformações, merece referência particular o fenómeno do desenvolvimento das cidades, decorrente do crescimento demográfico e das intensas migrações do campo para as cidades. É neste contexto historicamente inédito que se assiste ao declínio de formas tradicionais de sociabilidade, à proletarização de camadas importantes da sociedade, à emergência de formas novas de pobreza e mesmo ao agravamento de formas de comportamentos desviantes como o alcoolismo, a vadiagem e a prostituição. Da imensa variedade de todos esses problemas decorre a infinita variedade das associações então criadas, muito diversas quanto à sua natureza, às suas finalidades e às qualidades e condições sociais dos seus associados.» 
( In, www.sg.min-edu.pt)  Ler Tudo Aqui



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML, excepto as assinaladas)


8 de setembro de 2012

A Azinhaga das Galhardas

e a Fábrica de Tijolo


Em redor da Quinta da Calçada


A Azinhaga das Galhardas e os edifícios principais da Fábrica de Tijolo em 1977.
Aqui já não havia o muro que tapava o Bairro da Quinta da Calçada do mundo.
Foto francisco grave. 


A Azinhaga das Galhardas começava no Largo das Fonsecas e terminava em Telheiras, sendo cortada ao meio pela construção da segunda circular por volta de 1960. O piso era em paralelepípedo e durou dezenas de anos, até por volta de 1977, quando mandaram o muro da direita abaixo e alisaram, alargaram e alcatroaram a Azinhaga. Na foto vê-se os edifícios principais da Fábrica de Tijolo, que terá parado a produção por volta de 1973 (não estou certo da data), e aos poucos começaram a aparecer lá dentro muitas pequenas oficinas, principalmente de automóveis. 1961. Artur Goulart. 

Muro e edificios da Fábrica de Tijolo na Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart. 

Edifício da administração e portão principal da Fábrica de Tijolo. 1961. Artur Goulart.

Inicio da Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart.

Entrada para os camiões da Fábrica de Tijolo na Azinhaga das Galhardas. 1961. Artur Goulart. 

A Fábrica de Tijolo tinha outra entrada na Azinhaga dos Barros, que é esta. 1961. Artur Goulart. 

A Azinhaga das Galhardas entre as duas entradas do Bairro da Quinta da Calçada, que ficava por trás do muro à direita. Atrás da árvore ficava uma lagoa enorme onde antigamente ( presumo que nos anos 20/30), se tiravam os barros para a fábrica, que foi a razão de ela se instalar ali. Pelo menos, em 1908, já estava ali instalada. 1961. Artur Goulart.

A Azinhaga das Galhardas e as antigas entradas para o Bairro da Quinta da Calçada. 
Foto de 2009, feita com o google view.

A Azinhaga das Galhardas depois de passar pelo Bairro da Quinta da Calçada, 
passava aqui em frente à Escola de Telheiras. 1961. Artur Goulart. 

Azinhaga das Galhardas, parte de Telheiras, que foi cortada pela construção da segunda circular. 
Ainda me lembro destas casas, foram todas abaixo poucos anos depois. 1961. Artur Goulart. 

A Azinhaga das Galhardas, naquela casa ao fundo, virava para a direita e logo a seguir para a esquerda e acabava (acho eu) no Largo do "Rabaçal", onde havia um Chafariz (mais antigo que sei lá), daqueles para os cavalos beberem, onde se juntava à Estrada de Telheiras e a outra Azinhaga que ia para o Paço do Lumiar, de que não sei o nome. 1968. João Goulart.

A Azinhaga das Galhardas, naquela casa ao fundo, virava para a direita e logo a seguir para a esquerda e acabava (acho eu) no Largo do "Rabaçal", onde havia um Chafariz (mais antigo que sei lá) e a Taberna e Carvoaria do "Rabaçal", que ficava mais ou menos por trás dessa casa. 1968. João Goulart. 

Mapa topográfico da zona da Quinta da Calçada em 1908. A Fábrica de Tijolo, já existia e havia uma grandes instalações à direita no mapa, onde fizeram mais tarde o Bairro da Quinta da Calçada, que não consegui saber do que eram. Por trás da Igreja do bairro, já dentro dos terrenos do Estádio Universitário, havia muitas pedras de túmulos. Talvez tivessem a ver com essas instalações, que teriam a ver com a CML, que está encarregue dos cemitérios ou seria uma fábrica de mármores, sabe-se lá.


(Fotos e mapa do Arquivo Fotográfico da CML)