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3 de novembro de 2012

O CIF do Campo Grande

Em redor do Bairro da Quinta da Calçada


Os apanha-bolas de ténis do CIF

Tinha mais ou menos este tamanho de gente (aqui estou com 7 anos com bom aspecto porque era o casamento da minha irmã Emília em 1961), quando apanhei bolas de ténis para o senhor que está na foto ao lado. Chama-se João Lagos, nasceu em 1944, portanto tem mais 10 anos que eu. Quando apanhei bolas para ele (deve ter sido por volta de 1963/64) no CIF, tinha ele 18/19 anos e eu 9/10 anos. Foto de António Pedro Ferreira do jornal Expresso. Na foto da direita está Roger Federer num campo de terra batida rodeado de apanha-bolas com equipamento próprio e até bonés e sapatos de ténis. No CIF por volta de 1963/64 não tínhamos nada disto, excepto o campo que era parecido e até as bolas eram de outra cor (brancas). Hoje até cursos existem para apanha-bolas; mudam-se os tempos, como dizia o Camões. Foto encontrada em www.tenis.pt

O meu primeiro "trabalho" na vida foi a apanhar bolas de ténis no CIF, eu e outros miúdos da Quinta da Calçada e também de Telheiras. Devia ter uns oito anos quando comecei e deve ter durado até quando saí da escola que foi aos 10 (isto em 1964). O CIF era e é a sigla de Clube Internacional de Futebol e as suas instalações eram no fim do Campo Grande, começavam ao lado da Sanzala, onde mais tarde se construiu o bingo do Sporting e ia até á azinhaga dos Ameixiais (nem sabia que se chamava assim), que é aquela que vem do antigo Canil até Telheiras e que separava o CIF do colégio Alemão, e ainda pela Segunda Circular e pela estrada de Telheiras a norte. A entrada principal era por trás da Sanzala e ficava perto dos portões do antigo campo de futebol do Benfica. Tinha ainda outra entrada em Telheiras Velha e outra de frente para a segunda circular e que era por onde nós entrávamos quando iamos apanhar bolas ou então saltávamos o muro.


Noticias sobre o CIF em 1968 e 1969 e que dão para ter uma ideia do que era esse clube; na noticia de 1969 já se anuncia a saida do Campo Grande e a ida para o Monsanto onde ainda estão, mais o emblema do CIF encontrado na net. Clique para poder ler.

O CIF tinha vários campos de ténis (uns seis se bem me lembro), um deles o nº 1 tinha uma bancada com uma parte coberta, tinha um campo de futebol: aqui vi várias vezes antigas glórias do Benfica e Sporting que jogavam juntos numa equipa chamada SOV; tinha um olival (nós chamávamos-lhe assim) enorme, cheio de árvores de vários tipos e de vegetação densa. Das coisas que recordo bem era que além de apanhar as bolas, também as tínhamos de as ir procurar ao olival quando elas saiam fora do campo (é que havia cada nabo a jogar), o que fazia às vezes a gente dizer que não as encontrava para eles se chatearem e irem embora mais cedo e nós podermos ir para casa e levar as bolas "perdidas". Tínhamos de passar o rodo para alisar o campo, varrer e pintar as linhas, montar a rede (ajudar), regar, etc. Lembro ainda de um dos jogadores, um ricalhaço? chamado Neto? que tinha um mau perder danado e que quando perdia uma jogada mandava boladas com força nos apanha bolas. Ninguém o gramava.


Muro do CIF de frente para a segunda circular, que estava quase sempre fechado e que era por onde nós entrávamos ou saltavamos quando íamos apanhar bolas.  Ao fundo é o final do Campo Grande e o edifício grande á direita é o antigo Colégio de São Vicente de Paulo onde em miúdo ia todos os anos á praia em excursões organizadas por umas senhoras religiosas de lá. O edifício que se vê através do portão era as traseiras dos balneários, bar e escritórios e nesse espaço das traseiras, foi construído a certa altura um campo de mini-ténis (creio que era só para os apanha-bolas) que era jogado com umas raquetes de madeira a imitar as de ténis a sério. 1962. Artur Goulart.

Foi ali que dei as minhas primeiras fumaças em cigarros e cigarrilhas e também em bebidas de vários géneros que as pessoas que iam lá jogar (para nós era tudo gente rica), ás vezes deixavam por lá á mão de semear. Havia um encarregado que creio que se chamava Manuel (que vivia lá) e que era mau como as cobras e que tinha um cão também muito mau que ele só dominava á pancada com um pau. Este Manuel mandou-me embora umas duas ou três vezes (geralmente por responder torto) e lá tinha de ir a minha mãe Maria dos Anjos pedir por favor para eu voltar já que os tostões que eu trazia para casa faziam muita falta.



Campo de futebol do CIF em meados dos anos 60. Era aqui que se realizava um campeonato amador?, onde vi jogar as antigas estrelas do Benfica e do Sporting numa equipa chamada SOV. É pena mas não consegui nenhuma foto dos campos de ténis, nem informações sobre o SOV. 1961. Artur Goulart.

Havia também o senhor Armando que era uma espécie de faz tudo mas era um homem razoável e não nos causava problemas. O dia de receber era á sexta feira á noite (pelo menos no inverno) pelas 19/20h, e o que recebíamos tinha a ver com os jogos que fazíamos apanhando bolas e que eram contados á semana, não me recordo bem mas devia ser uma coisa entre 5 ou 10 escudos por semana, talvez um pouco mais e antes de regressarmos a casa íamos a uma taberna de Telheiras comprar alguma coisa doce ou bonecos da bola com esse dinheiro, era a maneira de ficarmos com alguma coisa para nós, coisas de putos.



Instalações (balneários) do campo de futebol do CIF, acabadas de construir em meados dos anos 50. 

Nesse tempo a minha escola primária (que foi a de Telheiras e não a da Quinta da Calçada) só tinha horários de manhã ou de tarde (não faço ideia do porquê) e isso fazia com que eu fizesse muitos jogos de ténis, daqueles que os jogadores marcavam horário e pediam apanha bolas. Um dia, calhou-me apanhar bolas logo de manhãzinha para o João Lagos, que veio a ser o maior jogador de ténis de sempre em Portugal (é o que dizem). Nessa altura ele devia ter uns 18/19 anos e o parceiro não veio; então ele disse para mim "pega numa raquete e manda-me umas bolas", que era para poder "puxar". A certa altura "puxou" tanto e com tanta força que me arrancou a raquete das mãos e mandou-a contra a rede do fundo, o que me valeu uns gritos de descompostura, mas geralmente era uma pessoa simpática. Nessa altura o João Lagos estava a despontar no ténis como a grande promessa, foi tricampeão nacional de ténis (1965, 1966 e 1967), (quer isto dizer que quando deixei de apanhar bolas ele foi logo a seguir campeão por três vezes), e é sportinguista (o que é pena). O campeão naquela altura chamava-se (creio?) Vaz Pinto mas que me lembre não ia ao CIF (passados tantos anos posso estar a baralhar as recordações).



Azinhaga do Ameixiais, parte de Telheiras de que já não existe vestígios, pouco tempo depois de ter sido cortada pela construção da segunda circular. À esquerda ficava e fica o colégio Alemão que tinham começado a construir por esta altura, a parte da árvores á direita eram terrenos do CIF, junto do seu campo de futebol. 1961. Artur Goulart


Azinhaga do Ameixiais, parte do hipódromo, tiradas mais ou menos do mesmo local com 50 anos de diferença (1961, Artur Goulart e 2009). Na foto actual em que se vê uns vestígios da antiga azinhaga; começa onde estão os caniços á direita e separa o hipódromo dos campos do CDUL e vai até á entrada principal do hipódromo e creio que já não dá passagem para nada. Foto a cores feita com o google view.

Das coisas boas que fizeram no CIF foi construírem por detrás dos balneários do ténis um campo de mini-ténis, que se jogava com umas raquetes de madeira. Aqui deixavam jogar os apanha bolas quando não havia jogos. Para acabar vou contar uma "aventura" onde estive envolvido e que deu brado durante anos, que foi o "assalto" que um bando de putos entre os 8 e os 12 anos (mais coisa menos coisa) anos fez ás instalações da Sanzala. A Sanzala era um Night-Club e restaurante só para gente fina e cuja construção era uma cubata enorme, ora a Sanzala, tinha um galinheiro fabuloso com galinhas, patos, etc e até faisões. Este galinheiro fazia paredes meias com o olival do CIF e só uma rede os separava. e nós fomos aos poucos arrebentado a rede que era grossa e nós uns putos, e um dia fizemos o "assalto".



 Entrada da Sanzala, que tinha a forma de uma cubata enorme e vista dos jardins. 1965. Artur Goulart.

Já não me lembro do que surripiámos nem de como foi que aquilo se iniciou, o mais certo foi algum dos mais velhos dar a ideia e os outros foram atrás, mas sei que tirámos muita coisa (galinhas e patos, etc) e levámos para casa. Não sei como eles descobriram (devem ter visto o buraco na rede e deduzido que os apanha bolas estavam metidos nisso) ou então foi quando chegámos á Quinta da Calçada, aquilo espalhou-se e como ainda havia posto da policia a certa altura estávamos todos de cana. Não me recordo de mais pormenores a não ser de só ter saído do posto lá para as oito da noite quando os meus pais chegaram do trabalho e tiveram de ir pedir dinheiro emprestado para pagarem a multa, que foi bastante. Ah, e também da tarei que levei.

Noticia em A Capital sobre a mudança próxima do CIF, de Telheiras para o Monsanto em Outubro 1971.

Planta das novas instalações do CIF em Monsanto. 1971. Noticia em A Capital.


(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML)


23 de setembro de 2012

A Escola de Telheiras

Onde fiz a Instrução Primária


A antiga Escola de Telheiras. Actualmente creio que é uma das casas de apoio aos doentes com sida. 
Ainda bem que serve para alguma coisa decente. 2009. Foto feita com o Google view. 


Em Redor da Quinta da Calçada


A memória mais antiga que tenho da escola de Telheiras, onde fiz a instrução primária, é de no primeiro dia? de escola, ser o dia de levar vacinas e de estarmos em fila e aterrorizados. A certa altura alguns dos miúdos mais velhos saltaram pela janela para não levarem as vacinas, as salas de aula eram no primeiro andar (pelo menos a minha) e sempre são uns três metros até ao chão. No meu tempo a escola só tinha uma porta ao meio, a outra foi acrescentada mais tarde. Entrava-se e havia umas salas à direita e à esquerda e umas escadas para o primeiro andar, onde havia um corredor grande e mais duas salas. Não sei porque fui para aquela escola, já que o meu bairro tinha duas escolas; de rapazes e de raparigas. Creio que deve ter sido porque, ou estavam cheias ou porque eu tinha seis anos e naquele tempo só se entrava com os sete anos já feitos.


A antiga Escola de Telheiras em 2010?, vista de um dos prédios que 
ficam junto à Azinhaga da Galhardas. Foto encontrada em panoramio.com. 


O que é certo é que entrei ainda com seis anos e fiz os sete a 24 de Setembro. Naquele tempo as escolas começavam nos inícios de Setembro. A escola correu-me bem, entrei aos seis e saí aos dez anos, recordo que tinha facilidade em aprender e um grande jeito para o desenho, dos professores e dos auxiliares, tenho algumas memórias mas que não chegam para me lembrar dos nomes, mas não tenho razões de queixa, por aí além. Creio que tive sempre professoras e só no último ano tive um professor. Houve uma professora que era um bocado mais ousada e trazia umas saias "curtas" e recordo que cruzava as pernas, o que possibilitava umas "visões místicas e vibrações cósmicas", a mim, ao Luis Pintor e ao Matateu, que era com quem eu me dava mais naqueles tempos. Um dia, arranjei uma régua não sei onde e resolvi oferecer a esta professora e para desgraça minha, fui o primeiro a levar com ela. As ponteiradas no cimo da cabeça, de que eu ouvia falar que davam noutras escolas ali era raro, mas lembro que de vez em quando (quando o caso tinha sido "grave"), éramos postos em fila e todos levavam reguadas. 


Foto do final do ano lectivo da Escola de Telheiras, eu estou de camisola branca ao pé do professor, de braços cruzados e de cabelo louro, ao meu lado direito está o Matateu (que já não vejo à mais de trinta anos e no meu lado esquerdo está outro puto da fábrica, que não recordo o nome mas acho, que era ou família do Matateu ou vivia perto dele. Aí na foto também deve estar o Luis Pintor, não sei se será o primeiro do lado direito sentado no chão. Recordo muitas destas caras mas os nomes zero. Os putos que estão na parte de cima estão em cima de um muro de um tanque de agua, que estava sempre cheio, mas não faço ideia para o que servia. Não deve haver na foto muitas mais crianças da Quinta da Calçada porque só iam para a Escola de Telheiras os que não tivessem lugar nas do bairro. A foto tem alguns problemas ao nível dos olhos porque alguém (se calhar eu, ou um dos meus sobrinhos) dedicou-se a riscá-los. Foto Francisco Grave.

O "Matateu", eu e outro puto de que não recordo o nome.

Uma das coisas que nunca compreendi é porque os exames da quarta classe eram feitos no Lumiar, quando todos os outros foram feitos na Escola de Telheiras. No Edifício da Escola de Telheiras, que devia ser uma antiga casa principal de uma quinta e que terá agora uns cem anos ou mais, vivia lá uma senhora que ou era a guarda ou governanta da casa, o que sei é que era ela que cuidava da limpeza da escola. Era conhecida por a Maria dos Porcos, porque tinha um trabalho de cuidar de porcos ali perto na chamada Quinta da Câmara (hoje, terrenos do Estádio Universitário). Mais tarde, fazia negocio a vender gelo, recordo ir lá comprar gelo já na minha adolescência, quando chegava o verão e queríamos refrescar as bebidas, porque naquela altura era rara a família que tinha frigorífico no Bairro da Quinta da Calçada. Quando terminei a instrução primária, os meus pais perguntaram-me se eu queria ir para o liceu, que eles fariam um esforço, para que eu continuasse a estudar, mas eu estupidamente disse que queria ir trabalhar e só vinte e tal anos depois é que fui estudar outra vez.


Foto de uma festa na Escola Alemã em 1970. Do outro lado da Segunda Circular (que é o que nos interessa), vê-se algumas casas da Quinta da Calçada, o Mercado e os Tanques. Os terrenos à direita eram as hortas que iam até à Escola de Telheiras e os terrenos ao centro era a chamada Quinta da Câmara, que ia até ao hipódromo e ao canil. 1970. Nuno Barros Roque da Silveira.

A Escola de Telheiras em 1962, no tempo em que eu andava nela e aprendia coisas, umas que serviram mais tarde, outras não. Esta foto é das traseiras, onde está a varanda, as escadas e a parte de baixo, mais a zona da árvore, era tudo território da chamada Maria dos Porcos. 1962. Artur Goulart.

A antiga Escola de Telheiras em 2010?, vista de um dos prédios que 
ficam junto à Azinhaga da Galhardas. Foto encontrada em nezclinas.blogspot.

Fachada da Escola de Telheiras. 1968. João Goulart.

Azinhaga das Galhardas com a Escola de Telheiras ao fundo. 1940. Eduardo Portugal.

Azinhaga das Galhardas com a Escola de Telheiras ao fundo, tirada mais ou menos da mesma zona que 
a foto anterior. Há 70 anos de diferença entre as duas. 2010?. Foto encontrada em nezclinas.blogspot.

A Segunda Circular acabadinha de alcatroar, com a Escola de Telheiras ao fundo. Por 
trás das árvores à direita ficava o Bairro da Quinta da Calçada. 1962. Artur Goulart.

A Segunda Circular em obras, com a Escola de Telheiras ao fundo. Por trás 
das árvores à direita ficava o bairro da Quinta da Calçada. 1961. Artur Goulart. 

Da porta da Escola de Telheiras, olhando para Telheiras era isto que se via, no tempo em que eu 
andava na escola. A moradias à direita são do Bairro Jardim de Telheiras. 1961. Artur Goulart. 

Zona perto da Escola de Telheiras onde nos recreios costumava-mos brincar. A rua 
é a Azinhaga das Galhardas que ia até ao pé do "Rabaçal". 1961. Artur Goulart.


Aqui foi onde fiz o exame da quarta classe. Tenho uma vaga memória de ter feito o exame; prova oral e escrita, de ter esperado um bocado a ver se tinha passado, de me darem uns papeis e de ter voltado a pé para o nosso bairro e de a certa altura ter dado por me terem caído um ou dois papeis, voltei para trás e encontrei-os perto da zona da Tobis (há dias de sorte). Este edifício fica na Alameda da Linhas de Torres e pertenceu à Sociedade Instrução e Beneficência José Estêvão fundada em 1911, creio que era um antigo Centro Escolar Republicano, que o Estado Novo aproveitou. Está há anos abandonado e espero que não o mandem abaixo, é um edifício de interesse histórico, creio eu que, não percebo nada disso. Foto a preto e branco: 1966. Artur Goulart. Foto a cores: 2009, feita com o Google view.



EVOLUÇÃO E SITUAÇÃO ACTUAL DOS
CENTROS ESCOLARES REPUBLICANOS


«Os Centros Escolares Republicanos fazem parte da riquíssima história do associativismo, tão vigoroso na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Fenómeno também europeu o associativismo oitocentista visava responder aos problemas e solicitações sociais decorrentes de transformações muito importantes, então vividas tanto na sociedade portuguesa como nas demais sociedades dos países ocidentais.
Entre essas transformações, merece referência particular o fenómeno do desenvolvimento das cidades, decorrente do crescimento demográfico e das intensas migrações do campo para as cidades. É neste contexto historicamente inédito que se assiste ao declínio de formas tradicionais de sociabilidade, à proletarização de camadas importantes da sociedade, à emergência de formas novas de pobreza e mesmo ao agravamento de formas de comportamentos desviantes como o alcoolismo, a vadiagem e a prostituição. Da imensa variedade de todos esses problemas decorre a infinita variedade das associações então criadas, muito diversas quanto à sua natureza, às suas finalidades e às qualidades e condições sociais dos seus associados.» 
( In, www.sg.min-edu.pt)  Ler Tudo Aqui



(Fotos do Arquivo Fotográfico da CML, excepto as assinaladas)


14 de setembro de 2012

O Estádio Universitário, o CDUL e a Cidade Universitária


Em redor da Quinta da Calçada


Um dos locais preferidos da minha infância. Havia muita a descobrir e muito por onde brincar. Podíamos ir "armar" aos pássaros, ver futebol, râguebi, brincar aos "romanos" (na altura estava na moda esse tipo de filmes), lançava-mos canas como se fossem lanças  e uma vez espetaram-me uma no pescoço, ver ténis, pedir cigarros aos estudantes e muito mais coisas. São tantas as memórias que nem consigo colocá-las aqui. Havia umas lagoas ou pântanos na parte do estádio perto da Segunda Circular mas, que foram secadas ou cheias de entulho aí por volta de 1963/64.  Havia o Canil que ás vezes deitava um cheiro horroroso (dizia-se que era quando colocavam os cães nos fornos). Havia umas casas iguais às da Quinta da Calçada, perto dos court de ténis, onde viviam as famílias que trabalhavam no Estádio Universitário. Agora da minha infância, só me lembro do Santana (que aliás vi há dias na oficina do João Téte), os outros já esqueci os nomes. Costumava-mos fingir que éramos atletas e fazíamos corridas na pista, jogávamos à bola e íamos até à esplanada tentar pedir alguma coisa ou só beber água. Quando foi construído o pavilhão em 1966, era mais uma coisa para nós descobrirmos  e mais tarde (1970/71), subíamos ao telhado para espreitar as miúdas nos balneários (coisas de adolescentes). A certa altura, já eu era quase adulto, o Benfica foi para lá treinar durante um verão (talvez 1972 ou 73) e era uma festa ver-mos todos os nossos ídolos, o Humberto Coelho, o Toni, o Zé Henrique e o Hagan, que fazia uns treinos muito duros. Havia um director do CDUL chamado Franklin (creio), que era um tipo porreiro, se bem me lembro, mas dos outros directores do CDUL, já não me recordo de nenhum e alguns estavam sempre a correr connosco. E, é melhor parar por aqui porque como disse são muitas as recordações do Estádio Universitário. Nem falei de um acampamento da juventude que houve ali em 1976, mas isso fica para outra altura.  


O Bairro da Quinta da Calçada, agora é um campo de golfe. Tenho que ir ver a que buraco corresponde a minha antiga casa e depois talvez jogar no euromilhões Foto sem data, mas arrisco que é de 2012, encontrada em lisboacity.olx.pt. 

O Estádio Universitário


«Apesar da edificação ter sido planeada em 1930, só foi inaugurado em 1956, ano em que acolheu os IV Campeonatos da FISEC - Federação Internacional Sportiva do Ensino Católico. Local de variados e importantes eventos desportivos, destaque-se, ainda,  o II Campeonato Mundial Universitário de Judo, em 1968, que trouxe a Lisboa alguns dos melhores judocas mundiais. Em 1955, os arquitectos João Simões e Norberto Correia projectaram um estádio destinado a ter pouco público, mas possibilitando a prática de várias modalidades, entre as quais o rugby, o futebol, o andebol, o hóquei em campo e o atletismo. Ao longo das décadas o estádio foi palco de inúmeros eventos desportivos. A 19.5.1966, foi inaugurado o pavilhão Gimnodesportivo, hoje designado pavilhão nº 1. Nos anos 70, o Estádio deparou-se com algumas dificuldades financeiras, falta de utentes e degradação de equipamentos. Todavia, em 1981, construiu-se o pavilhão nº 2, aumentando a capacidade de oferta do Estádio para a prática do andebol, voleibol, futsal e outras actividades físicas. Dois factos importantes na história do Estádio são a aprovação da Lei Orgânica que beneficiou a instituição de autonomia financeira, administrativa e quadro de pessoal e a publicação do Plano de Reordenamento do EUL, que veio definir os limites territoriais.


Apeteceu-me desenhar como as crianças. Sobre uma foto aérea da zona da Cidade Universitária feita com o google maps de 2009, desenhei a verde os limites das instalações do CDUL em 1962/64, ou como dizíamos o Estádio Universitário. Com cores diferentes desenhei o Bairro da Quinta da Calçada e algumas coisas que havia ali dentro e ao seu redor. Tudo isto foi feito de memória (que por vezes falha), como tudo na vida. É possível que contenha erros mas nada de significativo. Clique para aumentar.


Estádio Universitário

Na década de 90, foi alvo de remodelações por parte do arquitecto Karel Mariovet, o que possibilitou o acolhimento do Campeonato do Mundo de Juniores de Atletismo. Edificado pelo arquitecto Frederico Valssassina e inaugurado a 10.07.97, o Complexo de Piscinas é visto, hoje em dia, como um dos valores da capital, pelo facto de dispor de excelentes condições para o convívio e para a prática do desporto, tendo por isso um elevado número de utentes. A 5.10.2004, sendo o engenheiro Vasco Pinto de Magalhães homenageado pelo contributo dado na área da educação desportiva e pelo trabalho que desenvolveu na criação do Recinto Desportivo, foi descerrada uma placa, e passou a denominar-se Estádio de Honra Eng. Vasco Pinto de Magalhães. Actualmente, com capacidade para cerca de 3600 lugares, é composto por um campo de relva natural, oficialmente destinado para a prática de futebol de 11 e de râguebi. Tem, também, uma pista de atletismo, com medidas oficiais para a realização das provas. Refira-se finalmente que, em redor, é embelezado por várias estátuas alusivas a alguns dos desportos praticados no recinto. É actualmente o mais bem equipado parque desportivo da cidade de Lisboa.»
(Texto: marcasdasciencias.fc.ul.pt)

Panorâmica tirada do Hospital de Santa Maria para norte, vê-se parte da Cidade Universitária 
e no meio daquelas árvores ficava o Bairro da Quinta da Calçada. 1961. Artur Goulart.

Vista Aérea em 1939, do Bairro da Quinta da Calçada, como foi concebido e construído. Assinalado a vermelho a parte que foi destruída, para fazerem a pista de Atletismo do CDUL no Estádio Universitário. Como se pode ver, nesta altura ainda não estava construída a igreja, o mercado, o centro social, nem o infantário e as escolas. Foto copiada de publicação da CML. 

A pista de Atletismo do CDUL no Estádio Universitário, vendo-se a chaminé da fábrica 
de tijolo, a escola dos rapazes e o prédio do Largo das Fonsecas. 1961. Artur Goulart. 

Vista Aérea em 1940, do Bairro da Quinta da Calçada A parte que se vê na foto foi destruída, para fazerem a pista de Atletismo do CDUL no Estádio Universitário. Vê-se ainda um campo de futebol de que não tenho memória. Foto copiada de publicação da CML.

A entrada principal do Estádio Universitário. 1961. Artur Goulart.

Entrada principal do Estádio Universitário. 2009. Google View.

Este é o segundo portão do Estádio Universitário, aos poucos foi-se tornando o mais importante porque era por onde entrava e entra todo o transito. Deste portão começa uma rua que atravessa todo o estádio e que vai até aos campos que ficam perto da Segunda Circular. Recordo-me bem do edifício que esta á direita, porque, quando aquilo estava a ser construído (por volta de 1964/65), nós miúdos íamos para lá brincar depois dos operários terminarem o dia de trabalho. Uma vez mandei-me da parte mais alta, para cima de um monte de areia mas bati contra uma pedra que estava na areia e rachei o calcanhar e o resultado foi ter ido para o hospital e andar engessado um ou dois meses, mas, passado umas duas ou três semanas já jogava à bola com o gesso. 2009. Google View. 

Estádio Universitário, traseiras da cantina dos estudantes, 
vendo-se ao fundo o estádio de Alvalade. 1961. Artur Goulart. 

Estádio Universitário, a cantina dos estudantes. Ainda cheguei a ir aqui várias vezes aos Carnavais e passagens de Ano, que os estudantes organizavam, mas já devia ser crescido. 1961. Artur Goulart. 

Estádio Universitário, estátuas de bronze?, representando várias modalidades. Estavam espalhadas por todo o estádio. Lançador de Martelo, 1969. João Brito Geraldes. Jogador de Râguebi, 1960. Arnaldo Madureira.

Estádio Universitário, estátuas representando várias modalidades. Estavam espalhadas por todo 
o estádio. Jogador de Futebol, 1968. João Brito Geraldes. Corredor de Atletismo, 1961. Artur Goulart.

Avenida Professor Egas Moniz, situada entre o hospital de Santa Maria e o Estádio Universitário. Ao Fundo virava-se à direita para ir para o Largo da Fonsecas e Quinta da Calçada e à esquerda para Palma. Nesta altura o alcatroado acaba ali ao fundo as outras estradas eram de terra batida. 1961. Artur Goulart. 

Terrenos anexos à Cidade Universitária. Creio que foi aqui 
que fizeram o pavilhão do CDUL. 1961. Artur Goulart. 

Estrada no prolongamento da avenida Professor Gama Pinto, entre o Hospital de Santa Maria e a Cidade Universitária. Creio que isto era perto da entrada para o canil e também perto da estrada para o hipódromo. 1961. Artur Goulart. 

Estrada no fim da avenida Egas Moniz, vendo-se a velha vedação de madeira dos terrenos do Estádio Universitária e que ia dar ao Largo da Fonsecas. Pouco depois (creio), colocaram paralelipipedos. Não tenho bem a certeza do que estou para aqui a dizer mas, se estiver certo, à esquerda da foto havia o caminho para Palma. 1961. Artur Goulart. 

Aqui era o fim da avenida Egas Moniz, Não tenho bem a certeza do que estou para aqui a dizer porque não me recordo nada desta casa, mas se estiver certo, à esquerda da foto havia o caminho para Palma. 1961. Artur Goulart. 

Crise académica de 1962. Reunião de estudantes no estádio.
Foto encontrada em caminhosdamemoria.wordpress.com. 

Crise académica de 1962. Reunião de estudantes no estádio.
Foto encontrada na net

Tenho uma vaga memória de ter andado por aqui nestes dias e creio que chegámos a arrancar pedras da calçada para os estudantes mandarem à policia, mas já não sei se aconteceu mesmo ou se são memórias cruzadas. Nós miúdos, passava-mos "horas" depois da escola na Cidade Universitária, enquanto os nossos pais não vinham do trabalho, muitas vezes íamos ter com os estudantes pedir cigarros ou até apanhar beatas e recordo-me de ter havido uma carga da policia (que eu não vi) e de muitos estudantes terem fugido para dentro do Hospital de Santa Maria e de os "choques" da policia terem ficado à porta na zona dos autocarros (isto eu vi), não sei se depois entraram. Mas como disse já não tenho a certeza de nada e isto pode ter acontecido noutro ano mais prá frente.

Cidade Universitária. 1961. Artur Goulart. 

Cidade Universitária. Obras em frente à Reitoria. 1961. Artur Goulart. 

Cidade Universitária. Obras em frente à Reitoria. 1961. Artur Goulart. 

Panorâmica dos jardins do hospital de Santa Maria e da Cidade 
Universitária, tirada do terraço do hospital. 1961. Artur Goulart. 

Panorâmica tirada do hospital de Santa Maria, vendo-se a Cidade 
Universitária e, ao longe, o estádio José de Alvalade. 1961. Artur Goulart. 

Noticia num jornal Expresso de 1981, com referencia ao Bairro da Quinta da Caçada. 

Mapa dos anos 80 das instalações do Estádio Universitário, ainda com a 
parte do Bairro da Quinta da Caçada. Mapa encontrado em www.apada.org 

Foto do meu irmão Carlos, aí pelos anos 80, num dos campos situados junto à 
Segunda Circular, com dois dos seus filhos (meus sobrinhos), a Iara e o Ricardo. 

Noticia em O Jornal, com referencias à Quinta da Calçada, de quando o exercito 
andou a "alisar" os terrenos do Estádio Universitário junto à Segunda Circular à borla?. 

Estádio Universitário, estátuas representando várias modalidades. 
Fotos de 2010, encontradas em marcasdasciencias.fc.ul.pt


«O campo foi projectado como um pequeno estádio olímpico, com características monumentais e destinado à prática de várias modalidades: rugby, futebol, andebol, hóquei em campo e atletismo. O conceito artístico e de monumentalidade seria dado pela construção de estátuas alusivas à temática desportiva, distribuídas em redor do campo principal. Em 1958, foram construídas 7 estátuas: "O jogador de futebol" por Hélder Baptista; "O halterofilista" por Manuel Laranjeira Santos; "O jogador de rugby e o lançador de martelo" por Manuel Borges; "O lançador de disco" por Maria Helena Matos; "O corredor" por Stela Albuquerque; "A esquiadora" por Maria Gabriela Cordeiro Veloso; e, em 1964, "O salto" por Daniel Luzia. No 50º Aniversário, em 2006, foi ainda inaugurada uma "Escultura Comemorativa", do mestre José Rodrigues.»
(Texto: marcasdasciencias.fc.ul.pt)

Estádio Universitário, zona do antigo canil. 2009. Google View. 

Mapa das instalações actuais do Estádio Universitário, encontrado em eul.pt. 


(As foto não assinaladas são do Arquivo Fotográfico da CML)